domingo, 31 de maio de 2009

Profissão de risco




Pesquisas revelam que professores sentem sua autoridade diminuir e um em cada quatro diz ter sofrido ameaça de agressão

Adriana Prado e Maíra Magro


"Só sendo muito idealista para suportar"
Nilza Gomes dos Santos, professora de ensino fundamental do Distrito Federal


''Vou mais um dia para a escola, desanimada e certa de que as aulas não serão dadas. Quando chego à porta da sala tenho vontade de sumir." Este é um trecho da carta da professora mineira de ensino fundamental Áurea Damasceno endereçada à Secretaria de Educação de Belo Horizonte. O texto-desabafo circulou na internet e trouxe à tona, mais uma vez, o anacronismo do modelo pedagógico na rede pública e a crise de autoridade dos professores, que costumam acumular problemas nas cordas vocais de tanto gritar dentro das salas de aula. "Metade da turma passa o tempo todo conversando, pulando de cadeira em cadeira", continua a professora Áurea, confessando que se sente dentro de "uma rebelião".

Outro inimigo dos mestres é a violência dentro das classes. Uma professora foi torturada por um aluno em São Paulo, outra, no mesmo Estado, ameaçada de morte, vários são alvo de intimidações. Uma pesquisa sobre convivência escolar divulgada no início do mês pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) e a Secretaria de Educação do Distrito Federal transforma o problema em um número desanimador: 67,6% dos educadores sentem que sua autoridade ficou mais fraca nos últimos anos. O levantamento ouviu 1,3 mil profissionais da capital federal. "O retrato sintetiza a situação da maioria das escolas públicas do País", afirma a socióloga Miriam Abramovay, que coordenou o trabalho. "Os professores se sentem numa panela de pressão.

A dificuldade começa ao entrar na sala. "Levo 20 minutos para chamar a atenção dos alunos", diz Paulina Cordeiro, que ensina geografia no ensino fundamental das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro. "Tenho que berrar. Estou perdendo a voz", lamenta. À sua frente, jovens com celular e jogos eletrônicos - ou, até mesmo, dormindo. Esse desinteresse foi identificado na pesquisa da Ritla: 84,2% dos professores acham que os alunos prestam pouca atenção - ou nunca o fazem. Para Mírian Paura, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, isso se deve, em parte, às características atuais do sistema de ensino.

"As escolas não conseguiram se adequar à rapidez da informação e do conhecimento que os alunos encontram fora delas." A violência é o que mais assusta. Segundo a pesquisa, 26,4% dos professores já foram ameaçados pelos alunos e 7,5% sofreram violência física. Rosângela Castrioto, de São José dos Campos, em São Paulo, que dá aula de matemática no ensino médio, é uma dessas vítimas. Enquanto respondia às perguntas de uma estudante, no dia 18, ela sentiu o cabelo pegando fogo. "Um aluno veio por trás e riscou um fósforo", contou à ISTOÉ. Na delegacia, o garoto, de 16 anos, disse que "foi sem querer". "O comportamento deles está cada vez pior.

Quando estive na delegacia encontrei outra professora que registrava queixa porque tinha apanhado de uma aluna." Com Maria, professora do ensino médio, que pediu para não revelar seu sobrenome, aconteceu pior. Ela foi torturada durante 50 minutos em uma sala com 46 alunos, em São Paulo. "Amarraram minhas mãos, me amordaçaram e me jogaram no chão", conta. "Com lápis e canetas com pontas bem finas me furaram o corpo." Após o episódio, Maria teve síndrome do pânico, passou a receber ameaças e se mudou de casa.

Salários baixos e inadequação das escolas também complicam a situação. A professora de ensino fundamental Nilza Gomes dos Santos, do Distrito Federal, resume sua luta: "Só sendo muito idealista para suportar." Dividida entre 18 turmas com até 60 estudantes de ensino médio e fundamental, nas redes estadual e municipal do Rio, Rosilene Almeida da Silva reclama de esgotamento físico e emocional por causa da jornada de trabalho multiplicada.

Além de problemas na voz, o trabalho lhe causou lesões na coluna e nos braços. Por fim, ela caiu em depressão. "Entro na sala de aula e me pergunto: o que estou fazendo aqui?" Ela não é a única a fazer esse tipo de questionamento. "Minha vocação é ensinar e não lidar com a bagunça total", revolta-se Luiz Henrique da Costa, que leciona matemática no ensino fundamental na rede pública em São Paulo. Enquanto nada for feito, além dos mestres, a educação será a maior vítima desse sistema educacional falido.

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