terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

PT: QUAL A GRANDE TRANSFORMAÇÃO

PT: Qual a GrandeTransformaçã o?

Leonardo Boff

Não sou membro do PT mas um cidadão que se interessa pelos destinos do
nosso pais, nos últimos sete anos moldados pelo governo Lula.
A campanha eleitoral se iniciará oficialmente dentro de pouco. Há o grande
risco de que predomine um espírito menor, diria quase infantil, de uma
campanha plebicistária entre os feitos do governo de FHC e daquele de Lula.

Seria a disputa tola entre o ontem e o anteontem ou entre o atrasado e o
velho, como preferem alguns ecologistas. Pois ambos os contendores, na
relação desenvolvimento e natureza, manejam o mesmo paradigma, sob severa
crítica mundial, por conter o veneno que nos pode matar. Isso só serviria
para distrair os eleitores dos verdadeiros problemas que o Brasil e o mundo
irão enfrentar.

Uma disputa eleitoral séria, à altura da fase planetária da humanidade e da
importância fundamental do Brasil dentro dela, não deveria estar voltada
para o passado a ser continuado mas, sim, para o futuro a ser construido
coletivamente. Quem apresenta o melhor projeto de Brasil para o nosso povo e
em sua relação para com a nascente sociedade mundial? Que contribuição
essencial podemos dar face aos cenários dramáticos que se desenham no
horizonte?

Permito-me apresentar três sugestões para animar a discussão interna do PT.
O lema do encontro nacional - A Grande Transformação - nos remete Karl
Polanyi com o clássico livro do mesmo título (1944) no qual mostra como a
sociedade virou uma sociedade de mercado, transformando tudo em mercadoria.

Não será essa a Grande Transformação pensada pelo PT. Para que seja outra
coisa, o partido deve assumir seriamente este fato irrecusável: A Terra
mudou porque já estamos dentro do aquecimento global. A roda não pode mais
ser parada, apenas diminuir-lhe a velocidade. Se o termômetro da Terra subir
para mais de dois graus Celsius, nos próximos decênios, como previstos pelos
melhores centros de pesquisa, enfrentaremos no Brasil e no mundo a
tribulação da desolação. Muitos projetos já concluidos do PAC poderão ser
anulados. Não incluir em todos os planejamentos este dado é mostrar falta de
inteligência prática e irresponsabilidade histórica. Do contrário teremos
que aceitar a maldição de nossos filhos e filhas e de nossos netos e netas.

Outro dado não menos perturbador é: a insustentabilidade do sistema-Terra. A
partir de 23 de setembro de 2008 ficamos sabendo que o planeta Terra
ultrapassou em 30% sua capacidade de repor os bens e serviços necessários
para a vida. Estamos consumindo hoje o que precisaremos amanhã. Se quisermos
universalizar o nivel de consumo das classes médias mundiais, incluidos os
oitenta milhões de brasileiros, precisaríamos já agora de três Terras iguais
a esta. Este modelo de crescimento, como parece subjacente ao PAC, mostra a
sua inviabilidade a médio e a longo prazo. Não é que deixemos de produzir.

Devemos produzir mas dentro de um outro paradigma menos depredador do
sistema-Terra, com um acordo de respeito à suportabilidade de cada
ecossistema e com uma ampla inclusão social, imbuidos todos de uma ética do
cuidado, da responsabilidade universal e da busca do bem viver para todos.

Por fim, o PT precisa conscientizar o fato de que o Brasil é, seguramente, o
pais-chave para o equilibrio do Planeta. Ele é a potência das águas, o
detentor das maiores florestas, as grandes sequestradoras de dióxido de
carbono e reguladoras dos climas, com imensa biodiversidade e vastas terras
agricultáveis, podendo ser a mesa posta para as fomes do mundo inteiro, com
capacidade incomparável de gerar energias alternativas e com um povo
altamente criativo, que fez um ensaio civilizatório dos mais significativos,
não imperialista, e com uma visão encantada do mundo que lhe permite, no
meio das contradições. celebrar suas festas, torcer por seus times e dançar
seus carnavais, características essas decisivas para conferir um rosto
humano à mundialização emcurso.

O futuro passa por nós. Não percebê-lo por ignorância oudistração é não
escutar os apelos da Mãe Terra e é defraudar seus filhos e filhas, nossos
irmãos e irmãs que apenas pedem singelamente viver com decência.

- Leonardo Boff, Teólogo.

Um  outro mundo é possível. Um outro Brasil é necessário!

Postagem de: Luiz Navarro

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