domingo, 20 de junho de 2010

SOBRE HEGEMONISMO E CUPULISMO

SOBRE HEGEMONISMOS E CUPULISMOS



Ruy Guimarães*

“Tem tanta gente que se vai

Na imensidão do seu querer

Querendo a vida sem a morte

Ser mais forte, sem sofrer

E ter certeza sem buscar

Ganhar o amigo sem se dar”

Taiguara

O racha no Conclat que fundaria uma nova central surpreende apenas aos incautos e àqueles que não conseguem estabelecer uma análise da realidade concreta para além da sua frente de militância, estabelecendo os nexos entre forma e conteúdo, entre prática e discurso, entre os interesses particulares (inclusive os partidários/eleitorais) e gerais, buscando na história os elementos basilares para o estabelecimento do que realmente representa o novo e o que é recorrente.

A morte anunciada desse empreendimento era uma questão de tempo. Não que torcêssemos por ela. Bastava observar-se o método de construção dessa nova central para prever-se que teria vida curta. Foi menos que isto.

Nós que não cedemos ao canto de sereia do aparelho e que nos mantivemos firmes na construção da Intersindical – Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora, sempre defendemos veementemente a organização intersindical dos trabalhadores como a grande possibilidade de sucesso no enfrentamento ao capital e em defesa dos direitos da classe. Todavia, entendemos que esta organização deve ser resultado da unidade real nas lutas concretas da classe e não fruto da vontade e de acordos de ocasião de dirigentes e vanguardas político-partidárias. Não pode ser motivada pelas benesses financeiras advindas do Estado burguês via imposto sindical.

A unidade intersindical da classe trabalhadora é uma grande obra que deve ser construída sobre sólidos alicerces político-ideológicos e cimentada com um forte compromisso de classe, sob pena de se tornar rapidamente o alter ego da CUT. A base política deve se estabelecer a partir da unidade real em torno de uma prática sindical que respeite a vontade das bases, que ofereça a formação necessária para que o trabalhador no chão da fábrica, no seu local de trabalho tenha condições de compreender a realidade de exploração a que é submetido e seja ele também um organizador das lutas da classe. Este enfrentamento diário, consciente e organizado à exploração do capital forjará a base ideológica que permitirá um salto de qualidade na organização e nas lutas da classe.

A unidade intersindical, forjada na luta concreta, real, com respeito político, com participação consciente das bases desvelará para a classe o caminho da luta anticapitalista e antiimperialista, única forma de garantir conquistas históricas e alcançar novas vitórias rumo à construção do socialismo.

No entanto, certas vanguardas preferem gastar energias construindo apenas seus próprios aparelhos de forma sectária e exclusivista.

A construção dessa nova central desde o começo apresentou um método equivocado. As notícias que se tem do processo de mobilização das bases para as assembléias para eleição de delegados dão conta de métodos tradicionais usados pelo peleguismo mais atrasado como o transporte de “eleitores”. Em certos núcleos do CPERS-Sindicato, por exemplo, aonde há uma forte oposição à CUT – em grande parte de forma despolitizada, é verdade – dirigentes ligados à Conlutas e a setores do PSOL rompidos com a Intersindical, iam para as escolas chamar os trabalhadores para a assembléia votar contra a CUT. Ou seja, apostando na despolitização, na desinformação, pois muitos desses trabalhadores de base usavam um adesivo ou carregavam uma bandeira da Conlutas sem ter o mínimo entendimento sobre o processo.

Por isto, hoje qualquer militante da vanguarda desse processo dizer que as divergências se deram em torno da “composição da direção, [do] caráter da Central e o seu nome” não passa de choro de perdedor. Dentre as divergências que nós do PCB sempre apontamos publicamente está exatamente o método de construção e o caráter que vinha sendo imposto para a nova central. Uma central aonde o voto do estudante influenciaria o rumo da luta operária. Somos favoráveis à unidade dos diversos movimentos sociais e populares nas lutas, mas há que se compreender os objetivos e interesses diferentes, as formas de organização de cada movimento. Com esse caráter que vinha sendo imposto era perfeitamente previsível o inchaço de ativistas de movimentos diversos na luta sindical.

Da mesma forma, queixar-se do “dirigismo” e do “hegemonismo” do PSTU é puro chororô porque esta é uma característica histórica desse partido.

Assim, esperamos que aqueles companheiros que embarcaram no sonho efêmero da “nova” central – que a julgar pelas práticas apresentadas no Conclat já surgiu quase tão velha quanto a CUT – revejam sua posição, encaminhem sua autocrítica na prática e retomem o trabalho duro de construção pela base do instrumento tão necessário de organização e luta da classe trabalhadora. E que lembrem sempre os versos do poeta: “Quem só espera não alcança / Mas quem não sabe esperar / erra demais, feito criança / Cai. E até se entrega ou trai. / E cansa de lutar...”.
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* Militante do PCB/RS, Conselheiro 1/1000 CPERS-Sindicato.

Postagem de : Luiz Navarro

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