domingo, 28 de novembro de 2010

MEMÓRIA COMUNISTA:20 ANOS DAMORTE DE CAIO PRADO Jr.

Memória comunista: 20 anos da morte de Caio Prado Jr.


Milton Pinheiro*

No último dia 23 de novembro fez 20 anos da morte daquele que é considerado o nosso maior historiador, Caio Prado Jr. Esse pensador e homem de ação marcou o debate intelectual e político brasileiro, ao tempo em que agia sobre a realidade social, como militante do Partido Comunista Brasileiro, onde ingressou em 1931, permanecendo em seus quadros, até sua morte em 1990. Foram 59 anos de uma militância constante.

Caio Prado Jr. nasceu no dia 11 de fevereiro de 1907, na cidade de São Paulo e sua vida pode ser sintetizada por uma frase que ele citara no seu discurso como deputado estadual do PCB, na primeira sessão da primeira legislatura de 1947, da Assembléia Legislativa de São Paulo: “É por ação que os homens se definem”. Portanto, para conhecimento da história do Brasil, da luta pelo socialismo e da memória do PCB, é importante registrar a vida do camarada Caio Prado Jr., sem dúvida, o nosso maior intelectual.

Em 1924, Caio Prado Jr. ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo, já em 1926 participou do primeiro congresso dos estudantes de direito, em Minas Gerais, e, em 1927, publicou o seu primeiro artigo no periódico A Chave, intitulado “A Crise da Democracia Brasileira”. Em 1928, tornou-se bacharel em Direito. Nessa mesma ocasião foi preso em São Paulo por fazer uma saudação à candidatura de Getúlio Vargas, ao se dirigir ao então candidato Júlio Prestes. Em 1930, participou da Revolução como membro de um comitê de apuração dos crimes do governo anterior.

Em 1932, começou a publicar artigos, já com conteúdo marxista, examinando, naquele período, a economia brasileira. Nesse mesmo ano, fundou o Clube dos Artistas Modernos (CAM) e, em 1933, viajou para a URSS e, no retorno, publicou o livro Evolução Política do Brasil – Ensaio de Interpretação Materialista do Brasil. Logo depois, em 1934, publicou URSS: um Mundo Novo e, nesse mesmo ano concluiu a tradução do livro de Bukhárin, Tratado de Materialismo Histórico, fato de grande relevância histórica para a luta ideológica no Brasil, pois passávamos a ter literatura marxista entre nós. Ainda em 1934, enquanto participava de vários cursos na USP, que havia sido recentemente fundada, juntamente com vários intelectuais europeus e brasileiros, fundou a Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB).

O ano de 1935 se reveste de grande ebulição. São as lutas contra o governo autoritário de Getúlio Vargas e a construção de um instrumento de frente única chamado de ALN (Aliança Libertadora Nacional). Caio Prado Jr. foi eleito o vice-presidente da ALN em São Paulo e, nesse mesmo ano, passou a ser o diretor do jornal A Platea, onde escreveu e publicou o programa da ALN. O ano prossegue com grandes agitações políticas, em novembro, ocorreram o levante comunista e o governo popular e provisório de três dias na cidade vermelha de Natal, logo sufocado pelas tropas de Vargas a serviço da burguesia. A partir daí, desenvolveu-se uma gigantesca repressão aos comunistas e aliancistas por todo o país. Nessa onda repressiva ocorreu a prisão de Caio Prado Jr. no Rio Grande do Sul que depois foi trazido para São Paulo, onde ficou preso até 1937. Quando foi solto, ainda no ano de 1937, viajou para o exílio na França, onde desenvolveu intensa atividade intelectual e política. Fez cursos na Sorbonne, viajou pelo Norte e Noroeste da Europa e exerceu forte ação de solidariedade aos refugiados da Guerra Civil Espanhola. De 1937 a 1939, enquanto esteve na França, militou no Partido Comunista Francês e, nele exerceu muitas atividades políticas. Durante esse período escreveu muitos textos, em especial, pesquisa historiográfica, relatos de viagens, debates sobre cultura e uma discussão sobre a gênese e a evolução do socialismo.

No seu retorno ao Brasil, empreendeu várias viagens pelo interior do país, ficando mais tempo no estado de Minas Gerais e escrevendo textos sobre essas viagens, bem como um estudo sobre a questão urbana da cidade de São Paulo, publicado em 1941.

Em 1942, foi lançada sua grande obra Formação do Brasil Contemporâneo, que tem como eixo central o estudo da formação social brasileira e a sua transformação. Assim como Marx, no Capital, para Caio Prado jr., o estudo da realidade brasileira e sua formação social e histórica contém os elementos de suas característica atuais e os elementos para sua transformação. Apesar de ser uma obra respeitada e elogiada por historiadores de todos os tempos, mais do que uma grande pesquisa historiográfica, o objetivo subjacente é o conhecimento da realidade para sua transformação revolucionária.

Durante o ano de 1943, Caio Prado Jr. fundou a editora Brasiliense e escreveu diversos artigos sobre historiografia, em especial o Roteiro para Historiografia do Segundo Reinado (1840-1889). No ano seguinte, o intelectual comunista resolveu fazer articulações políticas para derrubar o governo Vargas, viajando para a Argentina e o Uruguai, onde manteve contato com intelectuais, todavia, mesmo com essa intensa movimentação política, continuou escrevendo textos historiográficos sobre algumas regiões do Brasil, sobre índios, povoamento e limites geográficos.

No ano de 1945, com o processo de democratização do Brasil e a legalidade do PCB, Caio Prado Jr. disputou a eleição para deputado federal na lista do Partido em São Paulo, mas ficou na terceira suplência. Ainda naquele ano, foi publicado o livro História Econômica do Brasil, e, logo em seguida, ele foi eleito para a Comissão Política do I Congresso Brasileiro de Escritores. Pouco depois, lançou a coleção Problemas Brasileiros pela editora Brasiliense.

Em 1946, Caio Prado Jr. aprofundou seus escritos nos diários políticos que fazia e participou, no PCB, dos debates sobre as candidaturas a deputado estadual que ocorreria no ano seguinte. Nas eleições de 1947, elegeu-se deputado estadual pelo PCB e participou intensamente dos debates no parlamento, onde apresentou emendas e projetos para a constituição paulista de 1947. Durante sua legislatura, dentre vários projetos, vale ressaltar que apresentou o projeto de criação da Fapesp (Fundação de amparo à pesquisa do estado de São Paulo), que se transformou em um dos mais importantes instrumentos de apoio à pesquisa no Brasil. Nesse mesmo ano, Caio Prado jr. publicou no jornal do PCB, A Classe Operária, o artigo “Fundamentos econômicos da revolução brasileira” onde criticou algumas avaliações e teses do partido.

A luta política e ideológica se acirrou no Brasil, o registro do PCB foi cassado em 1948 e Caio Prado Jr. teve seu mandato cassado juntamente com outros deputados comunistas pelo país. Ficou preso durante três meses e, quando foi solto, viajou para a Polônia, Tchecoslováquia e França. Durante esse período, trabalhou em textos filosóficos e prosseguiu em viagens pelos países da Europa, quando participou do Congresso da Paz em 1949, realizado em Paris pelo Partido Comunista Francês.

Dos anos de 1950 e 1951, Caio Prado Jr. se dedicou ao estudo da filosofia e publicou, em 1952, o livro, em dois tomos, Dialética do Conhecimento.

Um dado importante para a memória da luta ideológica no Brasil é que, em 1954, foi fundada, por Caio Prado Jr. a gráfica Urupês, que foi responsável pela publicação de farto debate sobre a realidade brasileira. Ainda nesse mesmo ano, Caio Prado Jr. concorreu à cátedra de Economia Política na USP, todavia, mesmo tendo sido aprovado no concurso de Livre-docência, não recebeu a cátedra na faculdade de direito.

Em 1955, foi lançado o primeiro número da histórica revista Brasiliense e, já no número 2, Caio Prado Jr. escreveu o artigo “Nacionalismo Brasileiro e Capitais Estrangeiro”. Nos anos seguintes continuou seu trabalho intelectual e, em 1957, publicou o livro Esboço dos Fundamentos da Teoria Econômica.

Entre 1960 e 1962, Caio Prado Jr. viajou pelos países socialistas, URSS, China e, em Cuba, participou das comemorações do III aniversário da revolução, integrando a delegação brasileira. Em 1962, no seu retorno, publicou o livro O Mundo do Socialismo.

Com o golpe civil-militar de 1964, saiu o último número da revista Brasiliense (51). Caio Prado Jr. foi preso novamente e, passou uma semana encarcerado no DOPS. Essa nova conjuntura brasileira e suas preocupações com a transformação da realidade encontraram em Caio Prado Jr. um esforço intelectual intenso, pois em 1966 ele lançou o clássico A Revolução Brasileira. Esse livro produziu um grande impacto na esquerda em nosso país e a perseguição política da ditadura avançou. Caio Prado jr. fugiu do Brasil em 1970 para o Chile, mas foi preso ao retornar nesse mesmo ano e assim permaneceu por quase dois anos. Foi indiciado em inquérito policial-militar (IPM) e condenado. Ficou preso, primeiro na casa de detenção Tiradentes e depois no quartel de Quitaúna, quando foi solto em agosto de 1971.

Embora esse ano de 1971 tenha sido um ano em que ficou preso, mesmo assim, publicou o livro O Estruturalismo de Lévi-Strauss – o marxismo de Louis Althusser.

A partir daí, começou o processo de recolhimento de Caio Prado Jr., porém continuou em articulação com as ações do partido e produzindo intelectualmente, publicando ainda, textos e livros, todavia, em 1979 ele ficou doente e passou por um período muito difícil até 1982, com o mal de Alzheimer. Continuou trabalhando muito, desenvolvendo suas reflexões intelectuais e, em 23 de novembro de 1990, morreu aos 83 anos, em São Paulo. Seu corpo foi velado na biblioteca Municipal Mário de Andrade e foi sepultado no Cemitério da Consolação.

Calava-se a voz, paralisava-se a caneta do maior intelectual da história do PCB e do maior historiador do Brasil. Mas suas ações e suas formulações pautaram a luta e o pensamento sobre a revolução em nosso país. Serve como marca indelével para o futuro socialista pelo qual todos nós lutamos.

* Professor de Ciência Política da Universidade do Estado da Bahia – Uneb, editor da revista Novos Temas e membro do CC do PCB.

Postagem de: Luiz Navarro

A GUERRA DO RIO- A FARSA E A GEO-POLÍTICA DO CRIME












Que guerra é essa? Quais os seus objetivos? A verdade precisa aparecer, antes que a tragédia aumente - e a verdadeira tragédia não são as interrupções da ordem pública pelos traficantes, com os carros em chamas. A tragédia mesmo é essa lei do mais forte que justifica quaisquer atrocidades contra o "outro", contra os "suspeitos", fazendo uso do "mal necessário" pra combater o "mal sem rosto", jogando um tipo de veneno que aduba o câncer social pra combater aquilo que desconhecemos - e sobretudo nós, a população civil desarmada, plateia encurralada que tende a se fragilizar ainda mais nestas situações.


A analogia que o artigo faz com o Iraque me pareceu perfeita, pois se é impossível defender o genocida Sadam Hussein (tal como é impossível defender os traficantes), igualmente impossível é defender a ação dos EUA para derrotá-lo. Os patetas de toda essa história miserável foram os estadunidenses, com a amputação de milhares de vidas. A guerra durou sete anos (não temos tanto até a copa e as olimpíadas) e segundo o WikiLeaks 63% das vítimas foram civis.

Precisamos de paz com verdade e justiça,

Rodrigo.

Abaixo um texto muito interessante sobre a situãção do Rio de Janeiro.

Acabei de ver do onibus uma imagem típica do tratamento dispensado pelo exército de Israel às crianças: Na calçada do Catete, bairro do Rio, próximo ao Centro, a guarda Municipal reprimia violentamente umas 6 ou 7 crianças negras e de rua que dormem no local. E a população assistia tudo calada. A idade desses meninos variavam de 8 a 13 ou 14 anos. O tratamento era na base da da violência e do ódio. Foi uma cena chocante! A guarda Municipal é treinada por assessores da MOSSAD. E, obviamente , entrou no clima e na onda levantada pelo Estado, através do seu governador.

O clima na cidade é de guerra aos pobres, desempregados, população de rua, etc... Tem especialistas credenciado pela academia falando, na Globo news, asneiras fascistas e exigindo leis que permitam a utilização das armas nestas ocasiões, ou seja estão fazendo campanha para que o Estado tenha mais liberdade para matar...

Esses acontecimentos me fez lembrar a declaração do Jobin, se não me engano no início do ano, que ,participando de um seminário em Israel, declarou em matéria no O Globo, que lamentavelmente nossas leis restringiam o espaço do êxito, como aquele que Israel tem tido contra os palestinos desarmados, classificado pelo nosso ministro, na matéria , de terroristas.



Bom, por favor leiam a matéria do professor abaixo, ela é esclarecedora.

Postado do Blog: somostodospalestinos.blogspot.com

A Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime

Cumprindo com compromisso de publicar notícias que não se encontram na grande mídia, divulgamos texto do professor José Claudio S. Alves, sociólogo da UFRRJ, sobre os acontecimentos no Rio.

Nós que sabemos que o “inimigo é outro”, na expressão padilhesca, não podemos acreditar na farsa que a mídia e a estrutura de poder dominante no Rio querem nos empurrar.

Achar que as várias operações criminosas que vem se abatendo sobre a Região Metropolitana nos últimos dias, fazem parte de uma guerra entre o bem, representado pelas forças publicas de segurança, e o mal, personificado pelos traficantes, é ignorar que nem mesmo a ficção do Tropa de Elite 2 consegue sustentar tal versão.

O processo de reconfiguração da geopolítica do crime no Rio de Janeiro vem ocorrendo nos últimos 5 anos.

De um lado Milícias, aliadas a uma das facções criminosas, do outro a facção criminosa que agora reage à perda da hegemonia.

Exemplifico. Em Vigário Geral a polícia sempre atuou matando membros de uma facção criminosa e, assim, favorecendo a invasão da facção rival de Parada de Lucas. Há 4 anos, o mesmo processo se deu. Unificadas, as duas favelas se pacificaram pela ausência de disputas. Posteriormente, o líder da facção hegemônica foi assassinado pela Milícia. Hoje, a Milícia aluga as duas favelas para a facção criminosa hegemônica.

Processos semelhantes a estes foram ocorrendo em várias favelas. Sabemos que as milícias não interromperam o tráfico de drogas, apenas o incluíram na listas dos seus negócios juntamente com gato net, transporte clandestino, distribuição de terras, venda de bujões de gás, venda de voto e venda de “segurança”.

Sabemos igualmente que as UPPs não terminaram com o tráfico e sim com os conflitos. O tráfico passa a ser operado por outros grupos: milicianos, facção hegemônica ou mesmo a facção que agora tenta impedir sua derrocada, dependendo dos acordos.

Estes acordos passam por miríades de variáveis: grupos políticos hegemônica na comunidade, acordos com associações de moradores, voto, montante de dinheiro destinado ao aparado que ocupa militarmente, etc.

Assim, ao invés de imitarmos a população estadunidense que deu apoio às tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Sadam Husein, e depois, viu a farsa da inexistência de nenhum dos motivos que levaram Bush a fazer tal atrocidade, devemos nos perguntar: qual é a verdadeira guerra que está ocorrendo?

Ela é simplesmente uma guerra pela hegemonia no cenário geopolítico do crime na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

As ações ocorrem no eixo ferroviário Central do Brasil e Leopoldina, expressão da compressão de uma das facções criminosas para fora da Zona Sul, que vem sendo saneada, ao menos na imagem, para as Olimpíadas.

Justificar massacres, como o de 2007, nas vésperas dos Jogos Pan Americanos, no complexo do Alemão, no qual ficou comprovada, pelo laudo da equipe da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, a existência de várias execuções sumárias é apenas uma cortina de fumaça que nos faz sustentar uma guerra ao terror em nome de um terror maior ainda, porque oculto e hegemônico.

Ônibus e carros queimados, com pouquíssimas vítimas, são expressões simbólicas do desagrado da facção que perde sua hegemonia buscando um novo acordo, que permita sua sobrevivência, afinal, eles não querem destruir a relação com o mercado que o sustenta.

A farsa da operação de guerra e seus inevitáveis mortos, muitos dos quais sem qualquer envolvimento com os blocos que disputam a hegemonia do crime no tabuleiro geopolítico do Grande Rio, serve apenas para nos fazer acreditar que ausência de conflitos é igual à paz e ausência de crime, sem perceber que a hegemonização do crime pela aliança de grupos criminosos, muitos diretamente envolvidos com o aparato policial, como a CPI das Milícias provou, perpetua nossa eterna desgraça: a de acreditar que o mal são os outros.

Deixamos de fazer assim as velhas e relevantes perguntas: qual é a atual política de segurança do Rio de Janeiro que convive com milicianos, facções criminosas hegemônicas e área pacificadas que permanecem operando o crime? Quem são os nomes por trás de toda esta cortina de fumaça, que faturam alto com bilhões gerados pelo tráfico, roubo, outras formas de crime, controles milicianos de áreas, venda de votos e pacificações para as Olimpíadas? Quem está por trás da produção midiática, suportando as tropas da execução sumária de pobres em favelas distantes da Zona Sul? Até quando seremos tratados como estadunidenses suportando a tropa do bem na farsa de uma guerra, na qual já estamos há tanto tempo, que nos faz esquecer que ela tem outra finalidade e não a hegemonia no controle do mercado do crime no Rio de Janeiro?

Mas não se preocupem, quando restar o Iraque arrasado sempre surgirá o mercado finaneiro, as empreiteiras e os grupos imobiliários a vender condomínios seguros nos Portos Maravilha da cidade.

Sempre sobrará a massa arrebanhada pela lógica da guerra ao terror, reduzida a baixos níveis de escolaridade e de renda que, somadas à classe média em desespero, elegerão seus algozes e o aplaudirão no desfile de 7 de setembro, quando o caveirão e o Bope passarem.

Postagem de: Luiz Navarro

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

44 MILHÕES NOS EUA VIVEM NA POBREZA

http://www.sonico.com/videos_detail.php?u=58185896&v=359397


Vejam este video, que retrata a politica Capitalista Imperialista de distribuição de rendas





44 milhões nos EUA vivem na pobreza 24 Novembro 2010


Classificado em Internacional - Imperialismo

Crédito: tiberiogeo.com.br

Por Patrick Martin

21 Setembro 2010

A quantidade de habitantes nos Estados Unidos que vivem na pobreza aumentou 43,6 milhões em 2009, segundo um informe emitido pela Oficina do Censo na quinta-feira passada. Esta é a maior cifra desde que a agência começou a publicar semelhantes cálculos há 50 anos. A cifra em si representa um aumento de 3.8 milhões pessoas comparado com o de 2008.

Em 2009, um em cada sete estadunidenses era pobre, segundo o governo define a pobreza. A taxa oficial da pobreza é 14,3%, a mais alta desde 1994. A taxa de pobreza, que havia sido 13,2% em 2008, aumentou mais 1%. Em 2009 apresentou 8,8 milhões de pessoas vivendo na pobreza, inclusive uma criança a cada cinco. Isso representa a mesma taxa de pobreza infantil que existia há 50 anos, quando o presidente Lyndon B. Johnson anunciou seu programa “A Guerra contra a pobreza”.

O informe do censo dá uma dimensão histórica das flutuações da taxa da pobreza nos EUA. O total de 43,3 milhões em 2009 é a cifra mais alta desde que o Departamento do Censo começou a reunir estatísticas sobre a pobreza em 1959, quando o total de pobres foi de 40 milhões. Para 1965, a quantidade de pobres havia diminuído a 30 milhões devido a que as condições econômicas haviam melhorado depois da recuperação que tomou lugar depois da Segunda Guerra Mundial. “A guerra contra a pobreza” que Lyndon Johnson lançou esse ano alcançou certo êxito, pois a quantidade de pobres abaixou 23 milhões justamente antes da recessão de 1974-1975. Mas a quantidade de pobres aumentou marcadamente durante a década de 1980, chegando a 40 milhões em 1993. Mas para 1999, esta cifra havia diminuído a 31 milhões. Desde então tem aumentado a passo certo, processo que acelerou dramaticamente quando começou a recessão.

O aumento da pobreza - que reflete o impacto da recessão econômica, as numerosas demissões e as reduções dos salários – concentrou-se nos adultos e crianças. Na realidade, a taxa de pobreza para crianças aumentou de 19,4 a 20,7%, a taxa de pobreza para adultos que podem trabalhar teve um incremento de 11,9 a 12,7%. A pobreza aumentou para todos os grupos raciais e étnicos, mas provou ser muito mais alta para os afro-americanos e hispânicos. Os primeiros sofrem uma taxa de pobreza em 25,8%, os hispânicos em 25,3%. Enquanto os brancos, a mesma está em 9,4%, o que representa um aumento de 8,6% em 2008.

Todo um setor do informe estava consagrado à cobertura do seguro médico. A enorme perda de empregos durante os últimos anos vem causando um efeito devastador para o seguro médico, o qual nos EUA principalmente depende do trabalho próprio.

A quantidade de pessoas sem seguro médico ultrapassou os 50 milhões em 2009, cifra alcançada pela primeira vez desde que começaram a manter-se as cifras em 1987. A cifra representa um salto de 46,3 milhões em 2008.

Aproximadamente 16,7% da população carecem de seguro médico; em 2008 a quantidade havia sido de 15,4%. Mas esta cifra não reflete uma realidade completa, visto que indivíduos tenham que estar sem seguro durante todo um ano antes que os levem em conta para fins de estatísticas.

A quantidade de pessoas com seguro médico pelo governo aumentou de 87,4 a 93,2 milhões devido à matricula nos programas Medicaid, Medicare e o Programa de Seguro Médico para Crianças. Mas esta cifra levou à diminuição de gente com seguro médico privado, as quais baixaram de 201 para 194,5 milhões. Somente 55,8% da população tem seguro médico à base do emprego.

O documento do Departamento do Censo reporta outras cifras que mostram a crise social que se aprofunda nos EUA.

•O ingresso dos lares se estancou em 2009, diminuindo ligeiramente a $49,777 de $50,112 em 2008.

•As mulheres que trabalham jornadas de tempo completo ganham 77% do salário que os homens com horas similares ganham.

•Para os lares afro-americanos o ingresso médio entre 2008 e 2009 declinou em 4,4% e em 1,6% para os lares de famílias hispanas e brancas.

•Enquanto as diferentes regiões do país, o ingresso médio no Midwest, que sofreu os golpes mais duros devido ao colapso industrial, declinou em 2,1% e no Oeste, centro do colapso da moradia, em 1,9%. Não houve mudanças nem no Sul nem no Nordeste.

•Comparado com o período antes da recessão em 1999, o ingresso meio dos lares diminuiu em 11,8% para os afro-americanos, 7,9% para os hispanos, 5,7% para os asiáticos, e 4,2% para os brancos.

•A desigualdade de ingressos continua intensificando-se em 2009, os 20% mais ricos recebeu 50,3% de todos os ingressos e os 5% recebeu 21,7%.

•Ainda antes de começar a recessão, a pobreza já era uma experiência muito familiar para um terço de todos os estadunidenses. De 2004 a 2007, aproximadamente 31,6% da população vivia na pobreza pelo menos durante dois meses ou mais.

A recessão de agora já empurrou a taxa de pobreza a uma porcentagem de 1,9 pontos e a quantidade total dos que vivem na pobreza subiu 6,3 milhões, incluindo a 2,1 milhões de crianças. Esta cifra é maior que todas as outras recessões desde a Segunda Guerra Mundial, com exceção das recessões de 1980-1981 e 1981-1982 em conjunto, quando a quantidade dos que vivem na pobreza subiu 10 milhões.

De igual significado é a grande quantidade de estadunidenses que vivem apenas acima da linha da pobreza e quem subsistem de ingressos completamente inadequados para uma vida aceitável. A prolongação dos benefícios de desemprego, por exemplo, manteve a três milhões de famílias acima da linha da pobreza no ano passado. Estes benefícios já foram prolongados três vezes este ano, e o mais provável é que termine em absoluto depois das eleições de novembro, o que significa que milhões de trabalhadores serão arrojados à indigência.

Referindo-se a estas cifras acerca da pobreza, Isabel Sawhill, da Instituição Brookings (grupo intelectual liberal), notou que “Isso inclui 6,3 milhões de gente nova ás filas dos pobres desde 2007, antes de começar a recessão. O problema se tornará muito pior muito antes que a situação melhore”.

Sawhill acrescentou que suas investigações sugerem que para meados desta década, a recessão agregará mais 10 milhões de pessoas às listas de desempregados, inclusive seis milhões de crianças.

Há razões suficientes para crer que o verdadeiro nível de pobreza é muito pior que o que o Departamento do Censo reportou. A linha que marca o início da linha da pobreza é tão baixa como para ser ridícula: $22,050 para uma família de quatro ou $10,830 para somente um adulto. Não tem sido ajustada para levar em conta a região geográfica, e por tanto despreza enormemente o nível de pobreza em regiões de custo elevado, tal como a cidade de Nova Iorque, Boston, Washington, D.C., e Califórnia.

A pesquisa do Censo exclui setores muito significantes da população: mais de dois milhões de prisioneiros; anciãos em residências e com prolongada estadia nos hospitais; e estudantes que vivem nos dormitórios das universidades. A maioria destes grupos poderia ser classificada como pobres, se não estivessem em instituições.

A linha que demarca a pobreza também é extremadamente antiquada, posto que é baseada em uma formula de 50 anos que se deriva de uma época quando os alimentos constituíam o maior gasto dos pressupostos familiares, as mulheres não trabalhavam fora de seus lares, a maioria da juventude não assistia à universidade, e a típica família tinha somente um carro. Por tanto, não toma em conta o impacto dos preços na área da atenção médica, do cuidado das crianças, do transporte e outras necessidades.

Ademais, como o mesmo informe do Censo notou, tem havido um grande aumento na quantidade de indivíduos e famílias que dividem a mesma moradia devido principalmente às dificuldades econômicas. A combinação de várias famílias ou indivíduos que não são parentes em uma mesma moradia tem o efeito de reduzir a taxa de pobreza oficial, a qual se calcula de acordo com a unidade familiar.

Como expressou David Johnson, chefe da Divisão de Estatísticas Acerca da Moradia e dos Asilos, que forma parte do Departamento do Censo, ao jornal Wall Street: “Se determina-se a pobreza de acordo com os recursos de membros de cada moradia em que são parentes, esta chegaria a 17%”.

A quantidade de moradias com famílias múltiples aumentou 11,6% de 2008 a 2010, e a proporção de adultos entre as idades dos 25 e 34 anos que com seus pais aumentou de 12,7% em 2008 a 13,4% em 2010. A taxa de pobreza para estes jovens adultos era 8,5% quando se considerava como parte da moradia de seus pais, mas esta subia a 43% se fossem independentes.

Estas estatísticas acerca da pobreza mostram o fracasso do capitalismo estadunidense e do governo de Obama. A Casa Branca recebeu as cifras com grande indiferença.

Obama lançou uma declaração de cinco parágrafos na qual assentiu que as estatísticas do censo “mostram o difícil que foi 2009”, mas jactou-se de que o plano de estímulo que havia sido adotado no ano anterior havia previsto uma situação pior.

Argüiu que “uma recessão histórica não tem que converter-se em aumentos históricos da insegurança econômica da família”. Acrescentou que “devido à Lei de Recuperação e muitos outros programas ofereceram reduções fiscais e ajuda aos ingressos da maioria das famílias trabalhadoras – e especialmente aos mais necessitados - milhões de estadunidenses escaparam-se da pobreza no ano passado”.

À medida que Obama se dirige às eleições de outono, a única justificativa que o governo de Obama pode oferecer é que “a situação poderia ter sido pior”. Mas é duvidoso que os milhões de trabalhadores que perderam seus empregos, seus seguros médicos e suas casas nos últimos anos possam conformar-se com essas palavras.

A declaração de Obama combina o menosprezo da crise com uma declaração que termina da seguinte maneira: “Apesar de todas as nossas dificuldades, sigo inspirado pela dedicação e otimismo dos trabalhadores dos estados Unidos. Tenho a confiança de que sairemos desta tormenta com uma economia revitalizada.”.

Essa retórica fanfarrona pode traduzir-se assim: “Como o representante máximo do capitalismo ianque, me assombra que ainda não tenha havido rebeliões de massas por parte dos trabalhadores dos Estados Unidos tanto contra meu governo como contra a aristocracia bancaria que sirvo. Espero poder enganar ao povo trabalhador com minha retórica acerca da “esperança” e da “mudança” pelo menos durante uns poucos anos mais”.

Ao menosprezar arrogantemente o sofrimento de dezenas de milhões de estadunidenses que ficaram empobrecidos com uma breve declaração por escrito, Obama consagrou seu dia laboral reunindo-se com um grupo de executivos empresariais: o Conselho de Exportações que ele mesmo dirige e que trata de fomentar a competitividade das indústrias estadunidenses reduzindo os custos, inclusive os custos salariais; e dirigentes das 100 maiores empresas do país, que se reuniram para assegurar que o programa educativo de seu governo está alinhado com os requisitos empresariais do país.

Fonte: http://www.wsws.org/es/articles/2010/sep2010/span-s21_prn.shtml

Traduzido do Espanhol por Coletivo Paulo Petry, núcleo do PCB/UJC em Cub

Formulário

Nome

E-mail

Site

Largura: 1000 . Ajuste a altura arrastando esta barra...

Subscrever

Atualizar código

EnviarCancelar

JCommentsVoltar•Entrada

InternacionalDKP Partido Comunista Alemão

FPLP Frente Popular de Libertação da Palestina

FDLP Frente Democrática pela Libertação da Palestina

MCB Movimento Continental Bolivariano

Pacocol Partido Comunista Colombiano

PCA Partido Comunista da Argentina

PCB Partido Comunista da Bolívia

PCC Partido Comunista de Cuba

PCFR Partido Comunista da Federação Russa

KKE Partido Comunista da Grecia

PCV Partido Comunista da Venezuela

PCCh Partido Comunista do Chile

PCE Partido Comunista do Equador

PCPE Partido Comunista dos Povos da Espanha

PCP Partido Comunista Português

PCL Partido Comunista Libanês

PCP Partido Comunista Paraguaio

PCP Partido Comunista Peruano

PCM Partido dos Comunistas Mexicanos

PPP Partido do Povo do Panamá

PRCC Partido Revolucionário dos Comunistas de Canárias

PRCF Pólo de Renascimento Comunista em França

PCU Partido Comunista Uruguaio

TKP Partido Comunista da Turquia

WPB Partido do Trabalho da Bélgica

FRELIMO Frente de Libertação de Moçambique

SACP Partido Comunista Sul Africano

MPLA Movimento Popular de Libertação de Angola

RCI Revista Comunista Internacional

SOLIDINET Rede Solidária

Odiário.info Odiário.info

Resistir.info Resistir.info

Rebelion Rebelion.org

Sede Nacional: PCB Creative Commons

RUA DA LAPA, 180 – conjunto 801 – Lapa – RJ Partido Comunista Brasileiro

Permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

Postagem de: Luiz Navarro





Webmaster: Dario da Silva

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

EU VOU NO BLOCO DESSA MOCIDADE QUE NÃO TÁ NA SAUDADE E CONSTRÓI A MANHÃ DESEJADA - OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER! 26 Novembro 2010

Classificado em Internacional - Imperialismo

Crédito: PCB

por Antonio Carlos Mazzeo, membro do CC do PCB

"Der Schoss ist frunchtbar noch, aus dem das kroch"

(Ainda está fecundo e procriando o ventre de onde isso veio engatinhando)

Bertolt Brecht

Quem não assistiu ao debate dos candidatos de esquerda no jornal Brasil de Fato perdeu e muito. Foi um grande esforço para romper o bloqueio e a censura "totalitária" da mídia burguesa, que até o fim insistiu em ter somente dois candidatos na disputa eleitoral, com uma regra três e um quarto periférico de esquerda. Ivan Pinheiro, Zé Maria e Rui Pimenta puderam explanar suas propostas de governo, as divergências e as convergências programáticas entre os três Partidos presentes, PCB, PSTU e PCO. A ausência lamentada e criticada, como era de se esperar, foi a de Plínio de Arruda Sampaio, do P-SOL.

Em meu modo de ver, essa iniciativa inaugurou um novo modo de cobertura eleitoral. Mostrou que é possível quebrar monopólios midiáticos e propor alternativas de comunicação, num mundo altamente informatizado, onde as informações chegam em tempo real para as pessoas. Sem exageros, posso dizer que a cobertura do jornal Brasil de Fato fez história no debate do dia 21 de setembro de 2010, entre as esquerdas socialistas. Daqui em diante, as coberturas e os debates eleitorais terão um novo formato e será cada vez mais difícil esconder e enganar a população sobre o que realmente ocorre em nossa sociedade.

Foi o ponta pé inicial, e muito teremos que fazer para tornar essa modalidade uma forma ampla de veiculação de informações. Efetivamente, ficou demonstrado que é possível. Valeu o esforço e o protesto. Ironicamente, até a mídia burguesa foi obrigada a estar presente naquilo que ela tentou esconder! Mas não nos iludamos, esse pequeno grande esforço é só uma das muitas e decisivas batalhas que teremos de travar contra a burguesia e sua mídia. De fato, há uma clara e militante intenção dessa mídia nacional de tentar varrer do mapa e da história os partidos operários e populares.

Mas essa não é uma operação restrita ao Brasil. A ofensiva burguesa contra os trabalhadores é geral e não se limita ao campo informativo. A crise orgânica do capitalismo impõe para a burguesia uma agenda de arrochos salariais e de retiradas das conquistas históricas dos trabalhadores. Privatizar não é somente a sanha furiosa de uma burguesia em crise e sedenta por lucros, mas é fundamental para a sobrevida de uma forma de sociabilidade em agonia.

Isso explica a crescente bonapartização das democracias burguesas. Um dos elementos componentes dessa recriação da história é a restrição às participações institucionais dos partidos comunistas e socialistas revolucionários e a tendência de bipartidarizar as representações políticas.

Não temos espaço aqui para discorrer sobre os processos históricos de cerceamento das lutas operárias no mundo. Mas é relevante que levemos em conta a sucessão ininterrupta das restrições às participações institucionais dos trabalhadores. Alguns cientistas políticos chamam de hegemonia do "modelo" anglosaxão, criado na Inglaterra como a primeira forma política para diluir a participação popular, dividindo o poder não somente em duas câmaras, a dos lordes e a dos comuns, como restringindo gradativamente, a partir do século XIX, a participação de outras organizações políticas. O bicameralismo elitista é seguido por um bipartidarismo bonapartizante que limita a participação dos partidos operários e populares, através de restrições eleitorais nos processos políticos.

Os Estados Unidos da América também possuem uma sistema político extremamente restritivo. Desde a independência, a preocupação das elites estadunidenses foi a de não possibilitar que a maioria do povo pudesse escolher seus governantes mais importantes. Criaram, a partir da própria experiência inglesa e liberal, mecanismos mesclados de votações diretas e indiretas que garantiram o poder aos grupos econômicos hegemônicos. Desde meados do século XIX, alteram-se no poder dois partidos políticos oligárquicos, surgidos da luta pela divisão do poder entre abolicionistas e escravistas. O Partido Democrata, um dos mais antigos do mundo, organiza-se em 1833, no sul estadunidense, por plantadores e donos de escravos, enquanto que o Partido Republicano, de 1854, é fundado para combater a escravidão e incentivar o desenvolvimento de forças produtivas modernas em franca oposição às elites retrógradas, latifundiárias e escravistas do sul. Quando chega ao poder, pela primeira vez, com Abraham Lincoln, provocam uma cisão no bloco burguês que causará a Guerra de Secessão, 1861-1865, e a hegemonia da burguesia industrial, com a vitória das forças da União contra os Confederados.

O PD moderniza-se e ganha sua face atual, a partir da década de 1930, com a liderança de Franklin Delano Roosevelt . Nos EUA, não há voto direto para presidente da república, mas votação em um colégio eleitoral que elege o presidente, com legislação confusa, sem muitas regulações. Mas se para ser delegado (e votar no colégio eleitoral) o membro não pode ter cargo eletivo, por outro lado, esse membro não pode ter nenhum envolvimento com revoltas sociais ou ações anti-governo!

Esse sumaríssimo recorte histórico nos demonstra quanto o movimento operário e dos trabalhadores lutou para garantir a participação das massas populares nos processos decisórios e, principalmente, como a Revolução Russa ampliou esses horizontes de conquistas. Mesmo assim, as burguesias nunca deixaram suas perspectivas de hegemonia autocrática. Pouco mais de duas décadas após a tomada do poder pelos comunistas na Rússia, as burguesias de todo mundo movimentaram-se para reprimir e cercear os movimentos proletários de cunho socialista e comunista.

Fala-se muito da ascensão do nazi-fascismo, na Itália, Alemanha e Japão. Mas cala-se sobre a repressão e cooptação do movimento operário nos Estados Unidos da América. As ascensões dos nazi-fascistas europeus e dos autocratas estadunidenses são resultados diretos da aventura burguesa para conter o avanço do socialismo no mundo. Se nos países fascistas a repressão sangrenta aos movimentos populares é bastante conhecida, as próprias guerras imperialistas, Iª e IIª, com a vitória das forças "aliadas" contra a Alemanha e depois, contra o "eixo", proporcionaram a manipulação do que realmente ocorreu no cenário internacional da luta de classes. Entre as décadas de 1920 e 1930, a crise econômica mundial e a penúria na Europa possibilita a chegada de partidos de extrema direita ao poder, fascistas na Itália e os nazistas na Alemanha, com apoio de suas burguesias e contra as organizações proletárias desses países. Mas também em outros países, a ultradireita chega ao poder. Franco na Espanha, através de uma sangrenta guerra civil, Oliveira Salazar em Portugal, Hiroito no Japão, afogando o movimento operário japonês em sangue, e Vargas no Brasil.

Roosevelt nos EUA terá o papel do desmonte gradativo do movimento operário estadunidense. Juntamente com a implantação do New Deal, atua em duas frentes: de um lado, legaliza os sindicatos, tendo por base de apoio setores da aristocracia operária, cooptados para o projeto burguês de reconstrução da economia. De outro, reprime os segmentos proletários de viés socialista ou comunista, fazendo um acordo com a máfia italo-estadunidense para a eliminação física dos militantes classistas.

Roosevelt implanta um tipo de corporativismo que facilita organizações sindicais amarelas (pelêgas) controlar o movimento em associação com os empresários. Enfrentando períodos de crise, inclusive a IIª Guerra Mundial, teve facilitada suas 4 reeleições para presidente, falecendo no seu 4º mandato. Convenhamos que quatro mandatos em um país bipartidário é mais do que autocracia burguesa, é bonapartismo explícito. No Brasil, Getúlio, que chega ao poder com um golpe de Estado apoiado pela burguesia modernizadora, fará o mesmo com o sindicalismo, mas não terá a competência de Roosevelt para por o país nos trilhos de uma economia saída da guerra.

A existência da União Soviética, com todos seus problemas internos, garantiu no âmbito internacional que o movimento operário e popular mantivesse suas conquistas e, mais do que isso, propiciou a vigência de campos políticos progressistas em países capitalistas, centrais e até nos países periféricos, ainda que com mais dificuldades. De qualquer modo, a presença da URSS freiou e moderou as ofensivas do capital sobre as relações de trabalho e garantiu conquistas democráticas aos movimentos dos trabalhadores. Somente após a falência das primeiras experiências socialistas, inclusive da URSS, a ofensiva burguesa tornou-se mais virulenta e, como diria Marx, sans phrase, (sem véus). Assistimos um grande ataque aos trabalhadores em todo o mundo.

No Brasil, dado o agravamento da crise sistêmica do capitalismo, tudo indica, o governo Dilma deverá ser mais conservador no plano econômico e, consequentemente, no plano social. A necessidade de ajustes para enfrentar a crise colocará demandas do capital que deverão incidir na situação dos trabalhadores. Flexibilizações, perdas de ganhos e até de conquistas legais deverão nortear a política governamental, sem contar com o aprofundamento das privatizações, começando com as reformas da previdência (a 2ª, já que a primeira realizou Lula, sobre os funcionários públicos) e a tributária, que tem por objetivo desonerar a produção, quer dizer, precarizar direitos e arrochar salários, isso tudo, com apoio da CUT e Força Sindical em consonância com o governo, aos moldes da política de Roosevelt ou, como diz a música, "no es lo mismo, pero es igual".

Mas essas medidas, em contrapartida, porão na ordem do dia a luta dos trabalhadores, reacendendo o movimento sindical. Aliás, a esquerda antagonista brasileira está convencida disso. Não nos esqueçamos que a Conlutas e a Intersindical já possuem agendas de lutas ampliadas e de resistência. Outra das reformas agendadas será a política, que proporá a exclusão dos chamados "partidos pequenos", ou dizendo de outro modo, proletários e populares da vida nacional.

O ventre autocrático burguês, mesmo velho e decadente, ainda gesta seus monstros ferozes contra os trabalhadores. A ofensiva em curso, porém, está encontrando resistências em todo mundo, na Grécia, na Itália, na Espanha e na França, pátria emblemática das lutas proletárias. No Brasil, não será diferente. Estamos nos preparando. No debate do dia 21 de setembro pudemos ver quantas convergências a esquerda antagonista está construindo. Apostamos na unidade das esquerdas, apostamos na construção do Campo Socialista, anticapitalista e antiimperialista. Venceremos.

Formulário

Nome

E-mail

Site

Largura: 1000 . Ajuste a altura arrastando esta barra...

Subscrever

Atualizar código

EnviarCancelar

JCommentsVoltar•Entrada

InternacionalDKP Partido Comunista Alemão

FPLP Frente Popular de Libertação da Palestina

FDLP Frente Democrática pela Libertação da Palestina

MCB Movimento Continental Bolivariano

Pacocol Partido Comunista Colombiano

PCA Partido Comunista da Argentina

PCB Partido Comunista da Bolívia

PCC Partido Comunista de Cuba

PCFR Partido Comunista da Federação Russa

KKE Partido Comunista da Grecia

PCV Partido Comunista da Venezuela

PCCh Partido Comunista do Chile

PCE Partido Comunista do Equador

PCPE Partido Comunista dos Povos da Espanha

PCP Partido Comunista Português

PCL Partido Comunista Libanês

PCP Partido Comunista Paraguaio

PCP Partido Comunista Peruano

PCM Partido dos Comunistas Mexicanos

PPP Partido do Povo do Panamá

PRCC Partido Revolucionário dos Comunistas de Canárias

PRCF Pólo de Renascimento Comunista em França

PCU Partido Comunista Uruguaio

TKP Partido Comunista da Turquia

WPB Partido do Trabalho da Bélgica

FRELIMO Frente de Libertação de Moçambique

SACP Partido Comunista Sul Africano

MPLA Movimento Popular de Libertação de Angola

RCI Revista Comunista Internacional

SOLIDINET Rede Solidária

Odiário.info Odiário.info

Resistir.info Resistir.info

Rebelion Rebelion.org

Sede Nacional: PCB Creative Commons

RUA DA LAPA, 180 – conjunto 801 – Lapa – RJ Partido Comunista Brasileiro

Permitida a reprodução, desde que citada a fonte.







Webmaster: Dario da Silva

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O ENIGMA DO LUCRO!

O enigma do lucro 22 Novembro 2010


Classificado em Cultura - Cultura Revolucionária

Crédito: 4.bp.blogspot.com

Autor: Paiva Neves (*)

O trabalhador, ao contrário do patrão, por mais que trabalhe, não consegue acumular bens, além do estritamente necessário para a sobrevivência de si e de sua família. O capitalista, ao contrário, através dos balancetes mensais de suas empresas constata o aumento de suas riquezas. A máquina ideológica do capital passa para os trabalhadores a idéia de que na sociedade capitalista todos são iguais em termos de oportunidades. O patrão é rico e o trabalhador é pobre, unicamente, porque um é ou foi mais esperto do que o outro. O patrão soube aproveitar todas as oportunidades que a vida lhe ofereceu, teve garra, foi audaz, enquanto que o trabalhador, descansado e sem iniciativa, não teve a audácia necessária para vencer na vida. Será isso verdade? De onde vem a riqueza do patrão, como é que ela se multiplica e por que o trabalhador, literalmente, se mata de trabalhar e está sempre com a corda no pescoço? Qual o mistério por trás do acúmulo de riquezas do patrão e a situação de miséria da classe trabalhadora?



Os patrões têm o domínio não só das fábricas, dos bancos e das terras. Os patrões, enquanto classe, dominam também os rádios, os jornais, a televisão, a internet, as escolas e o Estado com suas instituições. Através de toda essa superestrutura, a classe patronal termina dominando ideologicamente toda a sociedade. Dessa forma, a religião e a própria família terminam sendo correia de transmissão da propaganda da dominação dos patrões sobre os trabalhadores.



Quando toda essa máquina de difusão da ideologia capitalista diz que um é rico porque é esperto e o outro é pobre porque é preguiçoso, está ocultando a verdade. Esconde porque, no dia que a classe trabalhadora descobrir o mistério de como acontece a acumulação da riqueza, adquirirá consciência de classe, tomará o poder e transformará a sociedade.



Inicialmente, é necessário compreendermos que unicamente o trabalho é capaz de gerar riqueza. Uma máquina é só uma máquina. Por si só ela não acrescenta nenhum valor à mercadoria. A única coisa capaz de acrescentar valor no processo de produção é o uso da força de trabalho. Não confundir trabalho com força de trabalho. Força de trabalho é a energia física e intelectual que o trabalhador gasta durante o processo de produção. O trabalho é o resultado da ação dos trabalhadores sobre a matéria prima e os instrumentos de trabalho. Quando o patrão contrata o trabalhador para que este passe determinado tempo na sua fábrica trabalhando, não está comprando o seu trabalho. Está comprando sua força de trabalho.



Vamos imaginar que um determinado patrão tem uma determinada soma de dinheiro. Geralmente ele pega esse dinheiro do próprio Estado, através de empréstimos e incentivos, e quer montar uma fábrica para produzir sapatos. Digamos que ele tem 10 milhões. Digamos ainda, que do total desta soma, quatro milhões ele use para construir a estrutura física da fábrica. Com três milhões ele compre os outros instrumentos de trabalho, como máquinas e equipamentos. Do restante ele compre dois milhões de matéria prima e com o um milhão que sobrou contrate a força de trabalho.



A fábrica começa a produzir e ao final do ciclo do processo de produção, o patrão que tinha determinada quantia de dinheiro, agora tem essa quantia acrescida de outro valor. Esse valor a mais o patrão chama de lucro. Mais de onde vem o lucro? O trabalhador decifrando esse enigma, com certeza desvendará o mistério da exploração do capital sobre o trabalho. De uma classe sobre outra. Todo o dinheiro que o patrão tinha e que investiu na construção da fábrica, na compra de maquinário, matéria prima e na contratação de trabalhadores transformou-se em capital. Esse capital é de dois tipos. Um é o capital constante que são as máquinas, prédio, matéria prima e outros instrumentos de trabalho e o outro é o capital variável que é a força de trabalho que foi contratada.



A parte constante do capital não gera novo valor, apenas transfere o valor existente para as mercadorias produzidas. O valor da matéria prima é transferido integralmente e de uma só vez para as mercadorias enquanto que o valor de prédios, máquinas e equipamentos é transferido lenta e gradualmente, durante toda sua vida util. Quando uma máquina envelhece e não mais funciona é porque já transferiu todo o seu valor para as mercadorias ao longo do tempo.



Portanto, máquinas, matéria prima, prédio e demais instrumentos de trabalho não criam valor, apenas transferem seus valores para as mercadorias que foram produzidas. Daí ser chamado de capital constante. Já o capital que é empregado na aquisição de força de trabalho, esse sim, gera um valor novo. O capitalista contratou um número determinado de trabalhadores e paga a cada um deles uma diária de vinte reais, por uma jornada de oito horas de trabalho. Suponhamos que ao término da terceira hora de trabalho eles já tenham produzido o suficiente para pagar seus salários de todo o dia. Pela lógica, eles parariam de trabalhar aí, porem o patrão dirá: - calma lá! Eu os contratei para trabalhar oito horas e não três. Os operários dirão: - realmente foi, e continuaram trabalhando. Essas horas excedentes serão apropriadas pelo patrão. São horas não pagas. Este trabalho excedente é apropriado pelo capitalista. Eis aí o enigma do lucro patrão.



* Paiva Neves é do PCB Ceará e membro do CC.

Formulário

Nome

E-mail

Site

Largura: 1000 . Ajuste a altura arrastando esta barra...

Subscrever

Atualizar código

EnviarCancelar

Postagem de: Luiz Navarro

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

EXPEDITO ROCHA - PRESENTE

Faleceu na madrugada de hoje, em Curitiba, o nosso camarada Espedito Rocha, membro do Comitê Central do Partido.

Biografia Política – Espedito Rocha

Espedito de Oliveira Rocha nasceu em 1º de janeiro de 1921, no distrito de Santa Clara, pertencente ao município de Buíque no estado de Pernambuco, onde atualmente se localiza a cidade de Tupanatinga. Filho caçula com nove irmãos, Espedito desenvolveu um leque variado de atividades profissionais no decorrer de sua vida, dentre elas estão as de lavrador, vaqueiro, torneiro mecânico, funileiro, pedreiro, sapateiro, carpinteiro, entalhador, e, por fim, escultor.



Teve seu primeiro contato com a política aos sete anos de idade, quando viu seu pai sair armado com mais algumas pessoas em direção à cidade em um dia de eleição. Ficou sabendo através de sua irmã, que aquele grupo no qual seu pai estava inserido, tinha a missão de garantir que os eleitores da cidade votassem em favor do governo, vivenciando desde cedo um dos maiores problemas da história da política brasileira, o coronelismo.



No ano de 1938, Espedito filia-se ao Partido Comunista Brasileiro na cidade de Garanhuns – PE, estando na luta de resistência ao regime ditatorial de Getúlio Vargas, imposto através do golpe de 1937, o principal motivo da filiação ao partido. Logo no início de sua militância, voltando ao distrito de Santa Clara, causou grande surpresa aos moradores da região ao conseguir 120 votos para um candidato a Deputado Federal do PCB, até então desconhecido da população, nas eleições de 1945.



Em 1953, já em Curitiba – PR, em uma manifestação no dia 1º de maio, Espedito leva uma faixa contestando o decreto n.º 9.070, o qual dizia regulamentar, mas em verdade criminalizava o direito a greve, tendo então, o seu primeiro contato com atividades sindicais. Assim, começou sua história de militância dentro do movimento sindical, passando pelos sindicatos da construção civil, dos metalúrgicos, e dos trabalhadores da indústria química, alcançando grande destaque neste, onde exerceu os cargos de tesoureiro e presidente.



Candidata-se pela primeira vez no ano de 1962 ao cargo de vereador na cidade de Curitiba. Consegue um resultado expressivo, ficando como primeiro suplente até o golpe de 1964, quando é cassado. Neste ano, um dos mais difíceis de sua vida, é o único dirigente do partido no Paraná a não ser preso, conseguindo fugir e entrando na clandestinidade. A partir de então, adota os pseudônimos de Tibúrcio Melo e Tadeu Silva ao iniciar sua peregrinação oculta pelo país.



Entre os anos de 1967 e 1968, Espedito recebe as tarefas de dirigir o partido em um primeiro momento no estado de Alagoas, e posteriormente no estado do Mato Grosso que na época também abrangia o atual estado do Mato Grosso do Sul. Mantém-se na região até ser preso e levado para São Paulo, onde adquiri uma doença que o obriga a passar cento e vinte dias entre a carceragem e o hospital. Inicia então suas atividades enquanto escultor, projetando-se enquanto um artista com grande reconhecimento no âmbito cultural, não apenas dentro do estado do Paraná, mas em todo o país.



Nos anos 80, após retornar da clandestinidade, inicia o processo de reconstrução do partido no Paraná criando cerca de cinqüenta diretórios municipais, além de eleger um Deputado Estadual em 1983, ainda utilizando a sigla do MDB. No ano de 1986, vinte quatro anos após sua primeira candidatura, volta a pleitear um cargo eletivo, desta vez como Deputado Federal.



Durante os seus mais de setenta anos de militância no Partido Comunista Brasileiro, Espedito ocupou os cargos de Secretário Sindical do Comitê Municipal de Curitiba, Secretário Sindical da Direção Estadual do Paraná, fundando nesta oportunidade 78 sindicatos de trabalhadores de construção civil no estado, além de uma federação dos trabalhadores desta área, bem como cerca de dezesseis sindicatos de trabalhadores do comércio e da indústria, e uma federação dos trabalhadores agrícolas. Também foi Presidente Estadual do partido no Paraná e membro do Comitê Central durante muitos anos. No que concerne à atividades internacionais, Espedito esteve na U.R.S.S por um período de quarenta dias em 1986, quando ganhou a viagem como prêmio por ter vendido a maior quantidade de jornais do partido no país. Esteve ainda em Cuba no ano de 1988.



Nos anos 2000, Espedito Rocha recebeu o cargo de Presidente de Honra do PCB no Paraná, contudo, continuou participando da vida partidária sempre quando requisitado.



Com efeito, podemos entender através deste resumo de sua vida política, e do contato que muitos de nós tivemos com ele em diferentes momentos de sua vida, que o camarada Espedito não é apenas um exemplo, é também um herói. Um herói por dedicar grande parte de sua vida ao Partido Comunista Brasileiro, algo que não é simples, que não é fácil, posto que é de conhecimento geral o quanto é árdua a vida de um comunista. Um herói por em muitas oportunidades não ser compreendido por seus familiares e seus amigos, e mesmo assim seguir na tarefa revolucionária. Um herói por mesmo ao ver muitos camaradas desistiram da causa, ou ainda pior, traírem os princípios do comunismo, sempre ter se colocado a frente na luta pela construção de uma sociedade justa, onde não houvesse a exploração do homem pelo homem.

Veja a Página do PCB – www.pcb.org.br



Partido Comunista Brasileiro – Fundado em 25 de Março de 1922

Postagem de: Luiz Navarro

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"LULA É O CARA!" - ELE ACREDITOU

                                                             JOBIN E GATES

Laerte Braga

Os senadores Álvaro Dias e Sérgio Guerra estão em negociações com uma empresa de consultoria em Houston, Texas, para assessorar o PSDB na CPI da PETROBRAS. Tucanos e DEMocratas trabalham com o objetivo de encurralar o governo Lula e assegurar que, eleito José Serra, a empresa estatal de petróleo, logo o petróleo brasileiro, seja entregue a grupos econômicos norte-americanos.

A descoberta de reservas de petróleo na região chamada Pré-sal e a transformação do Brasil num dos grandes potentados no setor, aumentou a cobiça das grandes empresas estrangeiras sobre o “negócio”. E o “negócio” passa por desmoralizar a PETROBRAS e, em seguida, privatizá-la. Foi assim que fizeram com a VALE DO RIO DOCE, hoje só VALE.

O jurista Dalmo de Abreu Dallari, falando sobre cidadania e municípios, num seminário realizado na cidade mineira de Juiz de Fora, explicou seu ponto de vista sobre a desnecessidade de um Senado num país como o nosso.

É simples entender. Dallari explicou que nos Estados Unidos logo após a guerra da independência travada contra a Inglaterra, vários eram os estados, todos independentes, autônomos e que resolveram constituir uma poder central, a União, preservando as características básicas de suas respectivas independência, de sua autonomia. O Senado é a representação dos estados e o caráter federativo da União se mantém até hoje, mesmo que diminuído em relação àquela época.

No Brasil, ao contrário, sempre tivemos um poder central acima do poder das províncias, nome dado aos estados antes da proclamação da república. Foi a constituição de 1891 que mudou a terminologia. Passaram de províncias a estados, sem nenhuma mudança significativa na estrutura de poder. O Senado como representação dos estados, no Brasil, é ficção. Não há o que representar. Somos uma república federativa de fancaria. Na prática todo o poder emana de Brasília.

Muhamad Ali e Lenox Lewis foram os dois maiores campeões mundiais dos pesos pesados nos últimos anos, nas últimas décadas. Ali é inclusive o maior lutador de boxe de todos os tempos. Os dois costumavam dizer que contra adversários mais fortes, perigosos, ágeis, era necessário lutar por fora. Não permitir a luta corpo a corpo, não permitir a maior aproximação desses adversários e buscar golpeá-los em rápidos movimentos dentro do ringue, sempre à distância.

O grande erro de Lula foi não ter percebido que em sua primeira eleição o mandato conferido pelo povo brasileiro era um repúdio aos oito anos de FHC e todo o conjunto de desastres que foi o governo do tucano. O petista resolveu lutar por dentro. A idéia de governabilidade surgiu como a melhor forma de desarmar as bombas de efeito retardado deixadas pelo pior presidente de nossa história, Fernando Henrique Cardoso. Na ótica de Lula e do comando de seu partido.

Permitiu a aproximação de adversários fortes, perigosos e capazes de qualquer golpe, baixos principalmente. Aliou-se a figuras notoriamente comprometidas com os interesses das elites empresariais no campo e na cidade e inventou o que Ivan Pinheiro chama apropriadamente de “capitalismo a brasileira”. Políticas sociais compensatórias enquanto tentava e tenta criar um bloco capitalista alternativo aos Estados Unidos, a Comunidade Européia, ao Japão e a China. Toda aquela pantomima armada por Roberto Jéferson à época do mensalão reproduziu o comportamento tucano/DEMocrata, desde o primeiro momento do governo FHC, quando da concorrência do SIVAM (Sistema de Monitoramento da Amazônia).

Lula sabia e sabiam os seus ministros que Jéferson era comprometido muito mais com a extrema-direita brasileira (é oriundo, nasceu na ditadura militar como advogado defensor de criminosos e com estreitas ligações com as polícias do seu estado, o Rio de Janeiro e os aparelhos de repressão dos governos militares). O governo de Lula acreditou que o problema de Jéferson fosse apenas e tão somente algumas merrecas em termos de cargos públicos. Não foi capaz, de por um instante sequer, entender que ali estava alguém disposto a “negociar” com quem pagasse mais e principalmente, que esse dinheiro viesse, como veio, da extrema-direita.

O governo Lula sobrevive com altos índices de popularidade no carisma pessoal do presidente e no fato de dentro dessa lógica de “capitalismo a brasileira” estar sendo menos ruim, logo melhor, que o governo FHC. E numa proporção sem tamanho. O que não foi e nem é tão difícil assim, levando em conta que Fernando Henrique foi um funcionário norte-americano designado para governar o Brasil, como o foram os ditadores militares.

O que Lula não percebeu foram os novos ventos que começaram a soprar na América Latina e particularmente na América do Sul, com a eleição de governos à esquerda, portanto, adversários de interesses norte-americanos. E muito menos que o caráter de país continente do Brasil, mantém até hoje a frase de Nixon sobre nosso País como definição pronta e acabada – “para onde se inclinar o Brasil, se inclinará a América Latina” –.

Nesses quase sete anos de governo Lula duas constatações saltam aos olhos de imediato. O presidente optou pelo equilibrismo da velha política de uma no cravo e outra na ferradura e governa encurralado pela oposição, escorado inclusive no fantástico poder de mídia toda ela controlada por grupos econômicos e interesses estrangeiros, particularmente norte-americanos.

O espantoso nisso tudo é a popularidade do presidente, não tanto pelo conjunto da obra, mas pela capacidade de ter diminuído com políticas assistencialistas a dor e o sofrimento dos excluídos. Mas basta um tucano assumir o governo que essa dor volta. Não houve, pelo contrário, nenhuma ação concreta no sentido de organização e formação, até porque seu partido hoje, o PT, com uma ou outra exceção, é só um PSDB diferenciado.

E ambos, PT e PSDB são partidos paulistas que imaginam que o mundo começa e termina em São Paulo, um país vizinho que fala a mesma língua e é controlado por um conjunto de famílias reais encasteladas no esquema FIESP/DASLU.

De tanto pular de galho em galho, de tanto ficar confiando nos cipós, tal e qual Tarzan, Lula acabou ou está acabando enrolado num cipoal sem tamanho e sem saber o rumo direito, na “estação” José Sarney.

Somos um País de dimensões continentais, mas somos um país latino-americano. Não há como esquivar-se dessa realidade.

E passa pelo Brasil todo o agressivo e truculento processo de golpismo e intervencionismo norte-americano em países como a Colômbia, visando derrubar os governos democráticos de Chávez, de Evo Morales e Rafael Corrêa, ou no conjunto da América Latina, o de Ortega e de El Salvador, sem contar ou falar no governo de Cuba.

As bases militares norte-americanas na Colômbia têm esse objetivo, além, evidente, de facilitar o controle e a conquista definitiva da Amazônia. A presença de agentes de Israel, braço do terrorismo norte-americano no Sul do Brasil, asseguram e garantem a outra ponta.

Quando Barak Obama, branco disfarçado de negro que preside os EUA, ou finge, o controle é exercido pelo mesmo grupo que controlou Bush, chama Lula de “o cara”, está apenas jogando confete e tentando abrir as portas para que seus cavalos de Tróia entrem com a farsa democrática que montaram e montam em vários cantos do mundo, no neo-colonialismo chamado globalização.

E tucanos e DEMocratas cumprem aqui a perfeição, com máximo da subserviência possível, todo o esquema traçado em Washington e Wall Street. A despeito de petistas que vendem a mesma idéia do mundo neoliberal. Quem não está com Lula está com a “direita”. Como falam os norte-americanos. Quem não está com a nossa democracia, é terrorista.

A ”motoserra” que um dirigente do PT citou como conseqüência de “equívocos” de parte da esquerda, na verdade é produto dos erros e equívocos de Lula e seu partido.

Partidos, como dito num encontro recente, são meros agentes eleitorais e o PT não difere de nenhum deles. “Em ano de eleição se trabalha a eleição, em ano não eleitoral, se prepara para o ano eleitoral. Ouvi essa definição precisa e irrefutável de um velho combatente da ditadura militar.

O processo político mais amplo, que visa rechaçar todo o processo capitalista, passa ao largo dessa farsa institucional. Começa num diagnóstico real de uma conjuntura que não é só brasileira, mas é mundial. Está na ação terrorista do estado de Israel na Palestina, nas intervenções no Iraque, no Afeganistão, nas bases na Colômbia, no golpe em Honduras, em todo esse arremedo de “nova América” que Obama busca rotular seu governo. É a mesma América imperialista de Bush.

Lula levou a sério esse trem de “é o cara”. Caiu do cavalo quando chamou Obama para explicar as bases militares na Colômbia e ouviu um sonoro não. Até porque Obama sabe que tem gente aqui, caso dos tucanos e DEMocratas, como das nossas elites econômicas, já que elites são apátridas. E pior, Sabe que nossas forças armadas em sua maioria, rezam pela cartilha do patriotismo, mas o que se volta para o Pentágono, em Washington.

Nessa história toda Lula foi apenas o bobo. Nem foi capaz de entender que toda a baba de Aécio para pacificar senadores como Jereissati e Artur Virgílio na crise do Senado, era apenas defesa de Jereissati e Virgílio, notórios corruptos, num capítulo de sua disputa com Serra dentro do PSDB. Um enrola presidente, faz de conta que estou garantindo a democracia, a governabilidade, enquanto planto armadilhas pelo terreno e até outubro de 2010.

Só pensam nisso, em eleições. O resto, as firmas de Houston garantem, ou a GLOBO, ou a FOLHA, ou a VEJA. Ainda mais que o ano que vem começa com a nona edição do bordel BBB e tem copa do mundo. Depois é só vender um sabão em pó tucano, seja Serra ou Aécio.

Lula achou que Obama falou de verdade, para valer. Vai acabar tomando cerveja num jardim próximo ao Salão Oval da Casa Branca, com direito a escolher a marca e serviço pelo “garçom” Obama. É hora dos garçons, sagrada instituição mundial, começarem a pensar em protestos contra essa usurpação.

O real sentido da frase de Obama Lula não captou. “Me Tarzan, you Cheeta”.

Postagem de :Luiz Navarro

domingo, 14 de novembro de 2010

O GOVERNO COLOMBIANO SEQUESTRA, ESTUPRA E ASSASSINA CRIANÇAS 09 DE NOVEMBRO DE 2010

O governo colombiano sequestra, estupra e assassina crianças 09 Novembro 2010


Classificado em América Latina - Colômbia



Crédito: terratv.terra.com.co

José Antonio Gutiérrez D.

Rebelión

Enquanto a comunidade internacional e os cientistas políticos colombianos estão encantadísimos com o "ar fresco" que supostamente permeia o palácio presidencial - já que o presidente Santos prometeu que seu governo vai respeitar os direitos humanos - o Estado colombiano sequestra, tortura e abusa sexualmente de crianças em Arauca.

Em 14 de outubro, no município de Tame, Departamento de Arauca, três crianças, Jefferson Jhoan Torres Jaimes (6 anos), Jimmy Ferney Torres Jaimes (9 anos) e Jenny Narvey Torres Jaimes (14 anos) foram sequestrados por soldados da Oitava Divisão do Exército colombiano, enquanto seu pai, o agricultor José Álvaro Torres, estava em seus afazeres na lida com a terra. Após o sequestro, as crianças sofreram terríveis torturas, foram estupradas (existe evidência de sêmen e marcas de abuso sexual em seus corpos e roupas) e, em seguida, assassinados por degola com armas brancas (facões). Seus corpos foram posteriormente despejados em uma vala comum.

Até o momento, encontrou-se sangue nas mochilas dos sete soldados dos sessenta dessa unidade móvel, que estão sob investigação. Então, nós estamos falando de um monstruoso crime premeditado, organizado por estas bestas de uniforme que se acreditam onipotentes graças à política de guerra do governo colombiano, generosamente alimentada pelos dólares dos EUA e com o apoio de Israel e da União Europeia, entre outros. Feras que arrebatam de um pai a coisa mais preciosa que tem, seus filhos, para lhes dar alguns minutos de prazer sádico e doente. Devemos ser claros: estes crimes ocorrem no contexto de uma política de guerra suja, em que o Estado colombiano deu rédea solta a toda sorte de atrocidades para alcançar "o êxito militar" e tornou natural todo tipo de agressão contra o povo .

Crimes como este, aliás, não são excepcionais. Na mesma área, os moradores relataram que, em 02 de outubro, uma menina de 13 anos de idade foi raptada pelos soldados e, em seguida, abusada sexualmente. Pode-se dizer, neste caso, que a criança não foi assassinada, mas a violação mata sempre uma parte da humanidade de um ser humano, e pode dizer que essa menina também foi morta porque ela nunca mais será a mesma. Onde quer que se estabeleçam as tropas do Exército nas comunidades, há casos de violência sexual, muitas vezes contra os menores, de forma sistemática e generalizada. Estes casos são invisíveis, em parte por medo de represálias ou do estigma social em caso de denúncia, em parte, por uma estratégia deliberada de silenciar a realidade do conflito. Mas aqui está a realidade do conflito na Colômbia, onde o Estado, apesar de tentar apresentar-se como um ator neutro, como uma "democracia assediada por violentos", desempenha um papel fundamental e é o ator principal da guerra suja, por meio de seu agente direto (a força de segurança pública) e indiretamente através dos seus agentes paramilitares. Dentro desse conflito sujo, o estupro é uma arma de guerra. Assim também o é o assassinato de crianças.

Como esquecer o horror de San José de Apartadó, em fevereiro de 2005, quando os paramilitares, com a cumplicidade do Exército Nacional (Brigada XVII), esses "heróis" exaltados dia e noite por violentólogos em estúdios de televisão, assassinaram a sangue frio três crianças de 21 meses, 5 e 11 anos respectivamente?

Como esquecer os massacres como El Salado, Mapiripán, Trujillo, entre centenas de outros massacres, onde o exército e os paramilitares atuaram lado a lado, e nos quais milhares de pessoas foram assassinadas e estupradas, incluindo vários menores de idade?

Como esquecer as centenas de fossas comuns que aparecem a cada dia com menores de idade, inclusive bebês mutilados por facões?

Quem pode esquecer os cerca de 3.000 "falsos positivos", jovens que foram sequestrados e assassinados a sangue frio pelo exército, para logo serem apresentados como guerrilheiros mortos em combate, recebendo assim benefícios e promoções?

Diante de tudo isso, o governo diz, pela boca do Ministro do Interior e Justiça, Germain Vargas Lleras, este crime contra a humanidade não será julgado em cortes marciais, mas em tribunais civis porque "estes fatos não podem ser considerados atos de serviço e o conhecimento e sua investigação deverão ser conduzidos pelos tribunais comuns "... mas senhor, que alívio! Então o caso finalmente cairá nas mãos do Procurador-Geral Guillermo Mendoza e do procurador Ordoñez, os juízes de bolso do regime que não têm feito nada de substancial sobre a ocorrência de falsos positivos e que têm garantido a continuidade da impunidade que depois de décadas de terrorismo de Estado, abrange 98% dos crimes graves contra os direitos humanos. O Procurador Ordoñez, o mesmo que, sem qualquer prova, destituiu e inabilitou a senadora Piedad Córdoba, um dos poucos parlamentares que ainda se atreveu a contestar a política de guerra do governo, enquanto absolveu ou pediu absolvição para para-politícos reconhecidos como Ciro Ramírez, Alvaro Araujo, Mauricio Pimiento, ou notórios violadores dos direitos humanos como o Coronel da reserva Plazas Vega.

Por seu lado, em uma declaração completamente orwelliana, o vice-presidente Angelino Garzón disse que “se existem militares envolvidos (...) o que eles fizeram é um insulto ao Estado colombiano." Em outras palavras, o pior não é assassinato, estupro, seqüestro e desaparecimento, mas o dano (ao pouco que resta) ao prestigio do Estado colombiano. Tudo o que importa é o estado, que substitui o ser humano e que está acima de tudo, que absorve e sufoca a vida social, que é antes, em última instância, o único ao qual podem responder os militares.

Sairão os de sempre, os bardos do estado terrorista, os cúmplices dos crimes perpetrados pelas forças das trevas do controle social através da "estratégia de Noite e Neblina", a dizer que estes soldados são "maçãs podres", não "representam os valores do governo colombiano".

Nenhum Estado é definido por seus supostos "valores", mas por suas ações. E aqui temos de ser claros: o Estado da Colômbia é um Estado terrorista, que sequestra, desaparece, assassina, forma esquadrões da morte, desloca, envenena, bombardeia, ameaça, atormenta, espiona, comete detenções em massa.

Os soldados da oitava divisão no Tame atuaram como agentes do Estado, estavam representando o Estado, como milhares de outros soldados que, representando o Estado, participam da guerra suja e cometem qualquer tipo de abusos sistemáticos contra civis . Esses soldados não são casos excepcionais, mas a materialização, em carne e sangue, de uma política de contra-insurgência que tem naturalizado todas as formas de violência contra as pessoas. Isso é a cara do Estado, em vastas regiões rurais da Colômbia que se enfrenta a cada dia. Os soldados de Tame são os soldados do Estado colombiano.

O monstruoso crime de Tame nos horroriza, porém sabemos que do Estado colombiano se pode esperar tudo, até mesmo o inimaginável terrível, como tem mostrado o quão pouco sabemos através das versões livres dos chefes paramilitares.

José Antonio Gutiérrez D.

28 de outubro de 2010

Ver reportagem no Noticiero UNO: http://terratv.terra.com.co

Rebelión publicou este artigo com a permissão do autor mediante uma licença da Creative Commons, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.

Assita ao vídeo: http://terratv.terra.com.co/Noticias/Noticias-Uno/5499-249359/Miembros-del-Ejercito-habrian-asesinado-a-3-ninos-en-Arauca.htm

Formulário

Nome

E-mail

Site

Largura: 1000 . Ajuste a altura arrastando esta barra...

Subscrever

Atualizar código

EnviarCancelar

Postagemde|: Luiz Navarro
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

“Nelson Werneck Sodré”. Gildo Marçal Brandão, Diário do Grande ABC, 20 jan. 1999.

1. “Nelson Werneck Sodré”. Gildo Marçal Brandão, Diário do Grande ABC, 20 jan. 1999.




Quem sabe agora, depois de morto, Nelson Werneck Sodré receba uma avaliação mais equânime. Pois é difícil indicar na história intelectual brasileira quem tenha sido tão criticado — e injustiçado — como o autor de Formação histórica do Brasil, História da burguesia brasileira, História militar do Brasil, Memórias de um soldado, Memórias de um escritor, Razões da Independência, Panorama do Segundo Império, Introdução à revolução brasileira, etc. Identificado com as duas principais instituições que haviam dado o tom da esquerda política nos anos 50 e 60, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o Iseb, e o PCB, Partido Comunista Brasileiro, Werneck Sodré foi depois de 1964 atacado de todas as maneiras, pela direita e pela esquerda.



Conheci o “general” — como carinhosamente o tratávamos fora de sua presença, o mesmo apelido que, ao aludir a sua condição de militar reformado pelo Exército brasileiro, virava negativo na boca de seus adversários — em 1976, quando um grupo de professores da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pós-graduandos na USP resolvemos criar uma revista, Temas de Ciências Humanas, que entre 1977 e 1980 viria a atrair uma série de intelectuais de esquerda, alguns então exilados, que de uma ou de outra maneira eram hostis ao mundo intelectual da chamada “esquerda revolucionária” e gravitavam em torno da política frentista do velho PCB e de autores como Georg Lukács, Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti, para os quais até então tanto a esquerda acadêmica como a velha guarda do “Partidão” torciam o nariz.



Com a intenção expressa de balizar o campo intelectual no qual pretendíamos nos movimentar, convidamos para compor o conselho editorial da revista os dois maiores — e sob vários aspectos opostos — expoentes que o marxismo de matriz comunista produzira até então, Caio Prado Júnior e Nelson Werneck Sodré. Éramos todos — os três ou quatro que dirigíamos a Temas — caiopradistas e produtos uspianos, e olhávamos com certa condescendência a obra historiográfica do velho general, a qual entretanto defendíamos contra os ataques da universidade. Por um motivo ou por outro, Caio Prado recusou o convite e Nelson o aceitou e, apesar da distância (ele morava no Rio de Janeiro, nós em São Paulo), acabou se integrando. Salvo engano, sua participação na Temas deve ter sido sua primeira ação pública depois da notável experiência da Editora e da Revista Civilização Brasileira (que dirigira com Ênio Silveira e Moacir Félix), que morreram asfixiadas pela sanha vingativa da ditadura militar.



Me apraz pensar que Temas terá contribuído para voltar a pôr o seu nome em circulação. Quando o procuramos, como disse, Nelson era um nome maldito na universidade, especialmente paulista. Suas teorias sobre a burguesia e a natureza da formação social brasileira — que passavam por ser uma espécie de fundamentação intelectual da política do Partido Comunista — haviam sofrido críticas pesadas, diretas como a de Paula Beiguelman, que ele próprio publicou na revista que dirigia, a de Boris Fausto (A Revolução de 30 — historiografia e história), de Carlos Guilherme Mota (Ideologia da cultura brasileira), ou indiretas, como a de Fernando Henrique Cardoso (Empresário industrial e desenvolvimento econômico), Francisco C. Weffort (O populismo na política brasileira), Octavio Ianni (O colapso do populismo no Brasil), etc.



Seus livros haviam deixado de ser lidos ou o eram apenas para ser descartados. A paixão ideológica turvava o juízo crítico. Do outro lado, Werneck Sodré não deixava por menos: ele não só considerava que a USP era o centro do luta ideológica no Brasil e — acho que não chegava a dizer, mas pensava — o adversário principal das forças progressistas nesse terreno, como jamais se esforçou para responder historiograficamente, no plano científico e não meramente no ideológico, ao conjunto de críticas que lhes eram feitas. Do ponto de vista psicológico, dá para entender: o tratamento que ele recebeu revela muito da qualidade mental e moral do debate interno da esquerda naquele período. Intelectualmente, foi um desastre.

As paixões agora estão esmaecidas e não há por que não revisitar alguns de seus livros.

2. “O general e a história”, Marco Aurélio Nogueira.

Com a morte de Nelson Werneck Sodré no último dia 13 de janeiro, perdeu a cultura brasileira um de seus mais profícuos e influentes intelectuais.

Os leitores mais jovens talvez não consigam dimensionar a observação, mas houve uma época, não tão distante, em que o nome de Sodré era sinônimo de visão renovada e ousada da história nacional, baseada no marxismo. Sodré foi um pesquisador incansável, dono de dados e informações impressionantes, que empregou para escrever dezenas de livros basilares, nos quais se formaram muitas gerações de brasileiros. Seu apartamento na Rua Dona Mariana, no Rio, guardava preciosidades que encantavam qualquer estudioso.

Werneck Sodré nunca quis permanecer fora ou acima da polêmica. A despeito de praticar uma ciência rigorosa e objetiva, em nenhum de seus escritos deixaram de pulsar as causas em que acreditava e pelas quais se bateu a vida inteira: o socialismo, a independência nacional, a reforma agrária, o desenvolvimento do país. Foi daqueles intelectuais firmes como uma rocha, que jamais tiveram dúvidas sobre o lado em que ficar ou abriram mão de suas convicções. Costumava dizer que “não ter uma posição política justa é como não ter alma”, com isso querendo apresentar suas investigações não como mera especulação, mas como frutos de um posicionamento político. Talvez tenha sido o único oficial do Exército brasileiro a se proclamar abertamente marxista, a não ocultar suas simpatias pelo Partido Comunista Brasileiro e a sofrer as conseqüências disso, pela direita e pela esquerda.

Nascido em 1911, já nos anos 30 viajava pelo país a serviço do Exército. Em 1938, publicou seu primeiro grande livro, História da literatura brasileira, um esforço pioneiro para analisar as questões literárias a partir de “seus fundamentos econômicos”, isto é, das relações de propriedade e dos conflitos sociais. Pôs-se assim na mesma trilha de Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Hollanda, outros dois gigantes do período. Como todo pioneiro, cometeu exageros e defendeu posições discutíveis, mas promoveu o avanço do conhecimento sobre o Brasil.

Dos anos 30 até A farsa do neoliberalismo (1995), escreveria uma montanha de livros. Muitos deles são hoje clássicos. Seu indispensável O que se deve ler para conhecer o Brasil, de 1945, em que arrola e comenta centenas de textos básicos, foi reeditado e atualizado diversas vezes. Nos anos 50, ajudaria a fundar, com intelectuais de variadas orientações, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), que tanta importância teria na fixação da mentalidade do planejamento público entre nós e na generalização de uma visão mais arejada dos problemas nacionais.

Nelson Werneck Sodré mereceu implacável perseguição do furor macartista da ditadura de 64. Logo depois do golpe, foi cassado e posto na reserva. Seus livros foram considerados “subversivos”. Parte da esquerda também não seria muito generosa com ele: tenderia a ver suas teorias como emanação direta do PCB e as empurraria para segundo plano. Nem por isso o historiador deixou de trabalhar. Porém, a despeito de sua obstinada dedicação à pesquisa, não seria assimilado pela intelectualidade acadêmica que passaria a prevalecer no país. Seria mesmo “esnobado” por ela, visto como um “dogmático”, fato que azedaria seu relacionamento com a Universidade.

Mas Sodré não se tornou, por isso, avesso ao mundo universitário. Recordo-me das cartas que trocamos e das inúmeras reuniões da Comissão de Redação da revista Temas de Ciências Humanas, que com ele integrei na segunda metade dos anos 70. O “general” não se cansava de defender o diálogo com os jovens estudantes e pesquisadores. Achava que era preciso neutralizar as estocadas que sua linha de pensamento recebia dos intelectuais acadêmicos, que ele via como expressão perfeita da «luta ideológica» do período. Sua causa era o combate contra o autoritarismo e contra todos os que dificultavam a união das forças democráticas.

Por sua trajetória, por suas opções e especialmente pela relevância de sua obra, Nelson Werneck Sodré merece todas as homenagens que se costumam prestar aos grandes homens.

Fonte: Textos reunidos para Gramsci e o Brasil.

Postagem de: Luiz Navarro

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

INTERSINDICAL

INTERSINDICAL

Instrumento de Luta dos Trabalhadores Brasileiros

O momento em que se realiza esse Encontro da Intersindical representa um ponto de retomada das lutas da classe trabalhadora em todo o mundo. Na Europa, a retomada das lutas surge como resposta aos projetos da burguesia de fazer com que as massas paguem o preço da crise pela imposição de um conjunto de contra-reformas. Para sanar a crise do capital, os governo da União Européia, inclusive aqueles que nominalmente se dizem socialistas ou social-democratas (caso da Espanha e Grécia), apresentam como saída um profundo corte nos gastos públicos, cujos impactos se farão sentir na demissão de funcionários públicos e em uma nova reforma de previdência social que dificultará ainda mais o acesso à aposentadoria. É em reação a tais planos de ajuste que os trabalhadores europeus, especialmente os da França e Grécia, têm protagonizado grandes lutas de massa, realizando em curto período de tempo várias greves gerais.

É importante considerarmos que a magnitude dos ataques contra os trabalhadores pode representar o começo do fim das ilusões com a social-democracia e com a construção de um Estado de bem-estar social. Esse movimento poderá abrir uma nova conjuntura mundial onde os trabalhadores, em reação aos ataques sofridos, adquiram um protagonismo capaz de oferecer saídas alternativas a ordem capitalista. Em outras palavras, dentro da impossibilidade do capital superar a crise sem retirar direitos, podemos estar assistindo o aparecimento de uma retomada das lutas operárias de orientação anticapitalista.

Mas os ataques do capital não se resumem apenas ao âmbito da esfera econômica e na retirada de direitos dos trabalhadores. A crise também aumenta a agressividade do capitalismo, que tendo à frente o imperialismo norte-americano, acena com a possibilidade de novas guerras como forma de manter a produção aquecida e, assim, superar a crise. Tais fatos demonstram que o capitalismo a cada dia se torna uma ameaça à existência da espécie humana, precisando ser urgentemente derrotado para não sucumbirmos num aumento ainda maior da barbárie e de uma crise de dimensões ainda maiores.

No Brasil, a crise econômica não atingiu o mesmo nível das economias centrais. Nem por isso os ataques aos trabalhadores foram menores. As demissões, a rotatividade da força de trabalho como forma de reduzir salários e direitos, as terceirizações e as mudanças na legislação trabalhista continuam se aprofundando, com os argumentos oportunistas de que são medidas “necessárias para fazer frente e defender a economia brasileira da crise internacional”. Isso deixa claro que para o capital, quem sempre deve pagar o preço de sua crise são os trabalhadores. Além das demissões, os efeitos da crise no Brasil foram sentidos pelos trabalhadores de outra forma, pela intensificação, para os que ficaram na produção, do ritmo de trabalho e no grau de exploração.

Enquanto o capital recebeu gordos benefícios por parte do Estado para não verem seus lucros diminuídos, aos trabalhadores restou amargar o desemprego, a intensificação da exploração e medidas paliativas como o aumento de parcelas do seguro desemprego. Isso mostra que tanto no Brasil como no mundo, a ação do Estado capitalista, no sentido de salvar o lucro das empresas, jogou por terra toda a cantilena neoliberal do Estado mínimo. Diante da crise o Estado foi máximo, agindo para salvar os interesses do capital.

A nova presidente eleita já demonstrou que aprofundará as medidas de ajuste fiscal e de medidas macroeconômicas de interesse do capital, podendo também aprofundar a já precária condição do trabalho em nosso país, dando continuidade ao ciclo de contra-reformas que poderão atingir a previdência social, os direitos trabalhistas e aprofundar ainda mais as precárias condições para a venda da força de trabalho.

Esse quadro de ataque aos nossos direitos previsto para o próximo período encontra o movimento sindical dividido e fragmentado. De um lado, o campo abertamente governista, formado por centrais sindicais pelegas e neopelegas (CUT, Força Sindical, UGT, CTB e NCST), cuja lealdade ao governo é garantida pela repartição que este faz com as centrais do dinheiro do imposto sindical. Estas centrais, durante a crise, foram cúmplices e participantes ativos dos ataques promovidos pelo capital contra os trabalhadores, ao assinarem acordos que rebaixavam direitos, como salários, em nome da manutenção dos empregos. De outro, há um campo antigovernista, (formado pela Intersindical, pela Conlutas, e por organizações sindicais ligadas ao Psol) herdeiro de uma concepção classista e combativa, que busca reorganizar o movimento da classe, mas que se encontra dividido e fragmentado.

Os trabalhadores brasileiros, em sua rica história de lutas, vivenciaram diversas experiências organizativas. Todas essas experiências refletiram o momento histórico vivido pela luta dos trabalhadores e o seu grau de organização. Tiveram o seu surgimento, existência e desaparecimento condicionados pela necessidade histórica de os trabalhadores construírem as suas organizações para enfrentar o capital, naquele estágio da luta de classes.

A superação dos limites organizativos impostos pelo Estado, com a circunscrição dos sindicatos à representação das respectivas categorias, sempre foi bandeira do movimento sindical em nosso país. A luta pela liberdade e autonomia sindicais sempre esteve presente na pauta da classe trabalhadora.

Do bojo da CUT surgem duas experiências organizativas dos trabalhadores no país: a Intersindical e a Conlutas. A Intersindical foi fundada pelos setores que romperam com a CUT no processo congressual dessa entidade no ano de 2006. A Intersindical surgiu como um instrumento de organização e luta dos trabalhadores. Participaram de sua fundação a Unidade Classista - PCB, a ASS e as correntes do PSOL que não faziam parte da Conlutas: a APS, o Enlace e o Csol. Mesmo sem organização em todos os estados, a Intersindical teve um papel relevante nas lutas do último período.

Em 2008, no II Encontro Nacional da Intersindical, em São Paulo, após um profundo debate sobre a oportunidade ou não de se criar a Central Sindical naquele momento, precipitou-se uma fissura nesse encontro, tendo como eixo norteador a continuidade da Intersindical ou a unificação com a Conlutas. As correntes do PSOL optaram pela estratégia de unificação com a Conlutas, o que redundou na convocatória para o Congresso de Santos, em 05 e 06 de junho deste ano. Por outro lado, os comunistas, a ASS e independentes optaram por reforçar a Intersindical como instrumento de organização e luta dos trabalhadores.

O Congresso de Santos, que teria como objetivo principal a unificação da Conlutas com as correntes do PSOL que reivindicam a Intersindical, terminou com a retirada dessas correntes, juntamente com Unidos pra Lutar e do Movimento Avançando Sindical. O fracasso da tentativa de unificação tem causas que transcendem o Congresso e evidenciam as contradições de concepção de central, da metodologia de sua construção e de condução do processo em si.

A UC contrapôs à concepção de central sindical e popular defendida pela Conlutas, a necessidade de uma organização que expresse a intervenção dos trabalhadores enquanto classe, tendo como mote a contradição capital-trabalho. Os movimentos contra a opressão – anti-racismo, gênero, diversidade sexual – devem ser entendidos pelo ponto de vista de classe. Essas questões são importantes, mas são dimensões da exploração e da opressão do capital sobre o trabalho. Sem essa compreensão, os movimentos contra a opressão se tornam movimentos de busca por melhores condições de participação na dinâmica do sistema capitalista.

Todas as experiências organizativas dos trabalhadores brasileiros refletiram uma necessidade colocada pelo grau de mobilização do movimento operário. Apesar de lutas significativas de diversos ramos e categorias, a mobilização da classe trabalhadora não possui ainda um caráter nacional. A necessária unidade de ação do conjunto da classe é uma tarefa para este momento. Para tal, a ação da central supera o puro e simples economicismo. Ultrapassa, também, as manifestações espontâneas dos trabalhadores. A ação econômica, sem politização, descamba no peleguismo e na adaptação do movimento operário ao jogo da concorrência capitalista. Ou seja, não bastam conquistas salariais e de melhores condições de trabalho. Também é importante superar o obreirismo, evitando a divisão entre setor público e privado, situação formal ou informal, lutas da cidade e do campo.

O patamar da luta de classes no Brasil coloca para os trabalhadores a necessidade da construção de uma Central Sindical Classista. O maior patrimônio do movimento operário é a sua unidade. Mas essa unidade não pode ser construída burocraticamente. Promover essa unidade de ação é responsabilidade dos setores que se reivindicam de vanguarda. Nós da UC estamos dispostos a participar de todas as discussões necessárias à construção da unidade de ação e do programa capazes de nortear o caminho para a efetiva criação da Central Sindical Classista, uma central autônoma frente ao governo e ao patronato, que tenha centro nas organizações sindicais da classe trabalhadora. A construção dessa central não pode ser fundada por mero ato de vontade. Sua concepção tem que ser debatida a fundo entre as organizações da classe e não pode se submeter apenas às disputas entre partidos e correntes. A Central surgirá como uma construção da luta dos trabalhadores em nosso país, juntamente com a sua vanguarda, organizada na unidade de ação.

Nesse sentido, fortalecimento da Intersindical - instrumento de organização e luta dos trabalhadores – passa pela firme determinação de ampliar a luta dos trabalhadores, contra o capital, desde a base, e com todas aquelas organizações sindicais classistas que, nesse difícil momento, lutam para resistir aos ataques do capital e para avançar nas conquistas. Para o fortalecimento da Intersindical, devemos buscar garantir a participação de todas as organizações que entendem a necessidade de construção de uma Central Sindical Classista surgida da ação e do debate entre as diversas forças representativas da classe trabalhadora, que se dedicam de fato à unidade e à organização da classe no enfrentamento ao capital e na perspectiva da construção da sociedade socialista em nosso país.

Postagem de : Luiz Navarro