sexta-feira, 12 de novembro de 2010

“Nelson Werneck Sodré”. Gildo Marçal Brandão, Diário do Grande ABC, 20 jan. 1999.

1. “Nelson Werneck Sodré”. Gildo Marçal Brandão, Diário do Grande ABC, 20 jan. 1999.




Quem sabe agora, depois de morto, Nelson Werneck Sodré receba uma avaliação mais equânime. Pois é difícil indicar na história intelectual brasileira quem tenha sido tão criticado — e injustiçado — como o autor de Formação histórica do Brasil, História da burguesia brasileira, História militar do Brasil, Memórias de um soldado, Memórias de um escritor, Razões da Independência, Panorama do Segundo Império, Introdução à revolução brasileira, etc. Identificado com as duas principais instituições que haviam dado o tom da esquerda política nos anos 50 e 60, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o Iseb, e o PCB, Partido Comunista Brasileiro, Werneck Sodré foi depois de 1964 atacado de todas as maneiras, pela direita e pela esquerda.



Conheci o “general” — como carinhosamente o tratávamos fora de sua presença, o mesmo apelido que, ao aludir a sua condição de militar reformado pelo Exército brasileiro, virava negativo na boca de seus adversários — em 1976, quando um grupo de professores da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pós-graduandos na USP resolvemos criar uma revista, Temas de Ciências Humanas, que entre 1977 e 1980 viria a atrair uma série de intelectuais de esquerda, alguns então exilados, que de uma ou de outra maneira eram hostis ao mundo intelectual da chamada “esquerda revolucionária” e gravitavam em torno da política frentista do velho PCB e de autores como Georg Lukács, Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti, para os quais até então tanto a esquerda acadêmica como a velha guarda do “Partidão” torciam o nariz.



Com a intenção expressa de balizar o campo intelectual no qual pretendíamos nos movimentar, convidamos para compor o conselho editorial da revista os dois maiores — e sob vários aspectos opostos — expoentes que o marxismo de matriz comunista produzira até então, Caio Prado Júnior e Nelson Werneck Sodré. Éramos todos — os três ou quatro que dirigíamos a Temas — caiopradistas e produtos uspianos, e olhávamos com certa condescendência a obra historiográfica do velho general, a qual entretanto defendíamos contra os ataques da universidade. Por um motivo ou por outro, Caio Prado recusou o convite e Nelson o aceitou e, apesar da distância (ele morava no Rio de Janeiro, nós em São Paulo), acabou se integrando. Salvo engano, sua participação na Temas deve ter sido sua primeira ação pública depois da notável experiência da Editora e da Revista Civilização Brasileira (que dirigira com Ênio Silveira e Moacir Félix), que morreram asfixiadas pela sanha vingativa da ditadura militar.



Me apraz pensar que Temas terá contribuído para voltar a pôr o seu nome em circulação. Quando o procuramos, como disse, Nelson era um nome maldito na universidade, especialmente paulista. Suas teorias sobre a burguesia e a natureza da formação social brasileira — que passavam por ser uma espécie de fundamentação intelectual da política do Partido Comunista — haviam sofrido críticas pesadas, diretas como a de Paula Beiguelman, que ele próprio publicou na revista que dirigia, a de Boris Fausto (A Revolução de 30 — historiografia e história), de Carlos Guilherme Mota (Ideologia da cultura brasileira), ou indiretas, como a de Fernando Henrique Cardoso (Empresário industrial e desenvolvimento econômico), Francisco C. Weffort (O populismo na política brasileira), Octavio Ianni (O colapso do populismo no Brasil), etc.



Seus livros haviam deixado de ser lidos ou o eram apenas para ser descartados. A paixão ideológica turvava o juízo crítico. Do outro lado, Werneck Sodré não deixava por menos: ele não só considerava que a USP era o centro do luta ideológica no Brasil e — acho que não chegava a dizer, mas pensava — o adversário principal das forças progressistas nesse terreno, como jamais se esforçou para responder historiograficamente, no plano científico e não meramente no ideológico, ao conjunto de críticas que lhes eram feitas. Do ponto de vista psicológico, dá para entender: o tratamento que ele recebeu revela muito da qualidade mental e moral do debate interno da esquerda naquele período. Intelectualmente, foi um desastre.

As paixões agora estão esmaecidas e não há por que não revisitar alguns de seus livros.

2. “O general e a história”, Marco Aurélio Nogueira.

Com a morte de Nelson Werneck Sodré no último dia 13 de janeiro, perdeu a cultura brasileira um de seus mais profícuos e influentes intelectuais.

Os leitores mais jovens talvez não consigam dimensionar a observação, mas houve uma época, não tão distante, em que o nome de Sodré era sinônimo de visão renovada e ousada da história nacional, baseada no marxismo. Sodré foi um pesquisador incansável, dono de dados e informações impressionantes, que empregou para escrever dezenas de livros basilares, nos quais se formaram muitas gerações de brasileiros. Seu apartamento na Rua Dona Mariana, no Rio, guardava preciosidades que encantavam qualquer estudioso.

Werneck Sodré nunca quis permanecer fora ou acima da polêmica. A despeito de praticar uma ciência rigorosa e objetiva, em nenhum de seus escritos deixaram de pulsar as causas em que acreditava e pelas quais se bateu a vida inteira: o socialismo, a independência nacional, a reforma agrária, o desenvolvimento do país. Foi daqueles intelectuais firmes como uma rocha, que jamais tiveram dúvidas sobre o lado em que ficar ou abriram mão de suas convicções. Costumava dizer que “não ter uma posição política justa é como não ter alma”, com isso querendo apresentar suas investigações não como mera especulação, mas como frutos de um posicionamento político. Talvez tenha sido o único oficial do Exército brasileiro a se proclamar abertamente marxista, a não ocultar suas simpatias pelo Partido Comunista Brasileiro e a sofrer as conseqüências disso, pela direita e pela esquerda.

Nascido em 1911, já nos anos 30 viajava pelo país a serviço do Exército. Em 1938, publicou seu primeiro grande livro, História da literatura brasileira, um esforço pioneiro para analisar as questões literárias a partir de “seus fundamentos econômicos”, isto é, das relações de propriedade e dos conflitos sociais. Pôs-se assim na mesma trilha de Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Hollanda, outros dois gigantes do período. Como todo pioneiro, cometeu exageros e defendeu posições discutíveis, mas promoveu o avanço do conhecimento sobre o Brasil.

Dos anos 30 até A farsa do neoliberalismo (1995), escreveria uma montanha de livros. Muitos deles são hoje clássicos. Seu indispensável O que se deve ler para conhecer o Brasil, de 1945, em que arrola e comenta centenas de textos básicos, foi reeditado e atualizado diversas vezes. Nos anos 50, ajudaria a fundar, com intelectuais de variadas orientações, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), que tanta importância teria na fixação da mentalidade do planejamento público entre nós e na generalização de uma visão mais arejada dos problemas nacionais.

Nelson Werneck Sodré mereceu implacável perseguição do furor macartista da ditadura de 64. Logo depois do golpe, foi cassado e posto na reserva. Seus livros foram considerados “subversivos”. Parte da esquerda também não seria muito generosa com ele: tenderia a ver suas teorias como emanação direta do PCB e as empurraria para segundo plano. Nem por isso o historiador deixou de trabalhar. Porém, a despeito de sua obstinada dedicação à pesquisa, não seria assimilado pela intelectualidade acadêmica que passaria a prevalecer no país. Seria mesmo “esnobado” por ela, visto como um “dogmático”, fato que azedaria seu relacionamento com a Universidade.

Mas Sodré não se tornou, por isso, avesso ao mundo universitário. Recordo-me das cartas que trocamos e das inúmeras reuniões da Comissão de Redação da revista Temas de Ciências Humanas, que com ele integrei na segunda metade dos anos 70. O “general” não se cansava de defender o diálogo com os jovens estudantes e pesquisadores. Achava que era preciso neutralizar as estocadas que sua linha de pensamento recebia dos intelectuais acadêmicos, que ele via como expressão perfeita da «luta ideológica» do período. Sua causa era o combate contra o autoritarismo e contra todos os que dificultavam a união das forças democráticas.

Por sua trajetória, por suas opções e especialmente pela relevância de sua obra, Nelson Werneck Sodré merece todas as homenagens que se costumam prestar aos grandes homens.

Fonte: Textos reunidos para Gramsci e o Brasil.

Postagem de: Luiz Navarro

Um comentário:

Guizo Vermelho disse...

Poucos brasileiros foram realmente grandes, na dimensão de um Nelson Werneck Sodré.

É bom dialogar com os velhos livros desse militar que, ao contrário dos vendilhões da Pátria, respeitou e defendeu o Brasil e os brasileiros.

São livros que trazem lições também para os nossos dias, quando o capitalismo tenta reagir à sua grave crise partindo para o ataque.