quarta-feira, 20 de julho de 2011

O ASSALTO AOS CÉUS DO DESESPERO PEQUENO-BURGUÊS


(Roberto Numeriano)

Camaradas:

Em carta assinada por um ex-militante do Partidão, sou citado indiretamente, pois é público que sou servidor público federal da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), mediante concurso feito em 1994, além de membro do Comitê Central. O fato é público internamente ao Partido e também para a sociedade, na qualidade ainda de professor universitário e jornalista. Por isso, venho, publicamente, respondê-la em termos políticos. Menos pelo fato de que estou preocupado com a defesa de minha imagem de militante e de servidor público, e mais porque se trata de excelente oportunidade para refletir sobre as causas essenciais, em termos político-ideológicos, da Carta de Ruptura com o PCB, espécie de desabafo pequeno-burguês de quem pretende, como um arcano da Providência divina, saber para onde segue a história social e política da luta revolucionária no Brasil.

É típico, em determinados momentos de refluxo da luta de classes, como o que estamos vivendo no país, ocorrer reação de desespero diante da sensação de que “está tudo parado”. Esta sensação reativa é fruto da idealização de processos políticos e sociais. Sempre ocorre, e a literatura revolucionária está cheia de histórias de coletivos e de indivíduos que partiram pro tudo ou nada, pro assalto aos céus. É em geral protagonizada pela mentalidade pequeno-burguesa, atraindo sobretudo jovens que, oriundos quase sempre de camadas médias urbanas, imaginam desalojar Satã e suas hostes de anjos malignos do capital na primeira carga de sua artilharia de verbos e punhos fechados.

O velho Partidão, no qual comecei a militar aos 21 anos (1984), conhece isso de cor e salteado, como dizemos aqui no Nordeste. Ainda na época da clandestinidade me aproximei do Partido imaginando saber muito sobre a teoria e prática revolucionária, fruto de minha idealização livresca do real. Mal comecei a conversar com os velhos quadros do Partido (operários, padeiros etc) percebi que aqueles homens tinham mais a me ensinar do que qualquer livro. Eram homens da luta de vida e morte contra o fascismo militar e civil que o PCB enfrentou desde os anos 20. Eram de origem operária e rural. Eram homens honrados porque, decerto, não viam aquele jovem diante deles como de classe A, B ou C. Não perguntariam minha profissão, se àquela época eu já tivesse uma. Não veriam cor, sexo ou religião. Nem, sobretudo, duvidariam de minha honra. O que importava para eles é que eu estava ali, no PCB, um jovem que um dia eles também foram nos tempos de Gregório Bezerra e de Luís Carlos Prestes.

E lembro como exemplos esses dois nomes imortais da luta revolucionária e socialista brasileira porque foram homens oriundos do Exército brasileiro, instituição cuja história é anticomunista e até fascista, desde os anos 20. Pois militaram no Exército grandes quadros do PCB. E ninguém duvidava da honra desses homens, ninguém apareceu para acusá-los de “infiltrados e oportunistas”. E foram milhares os militantes do PCB oriundos das Forças Armadas, mesmo na ativa do serviço.

Queria dizer que jamais me movi para integrar o Comitê Central. Para mim, é uma honra política maior do que qualquer outra que eu pudesse alcançar como militante. Não é pouco integrar um coletivo que um dia abrigou Gregório, Prestes e Marighela. Fui chamado para compor esse coletivo. Posso sair dele agora ou no futuro, e continuarei minha militância com a mesma dedicação.

A Carta fala num “medo da militância”. Para mim, o medo é mal conselheiro. É justamente ele quem inspira, na essência, o arrazoado raivoso, contraditório e injusto que significa a Carta. Fala-se de um medo atribuindo-o a terceiros, mas que parece ser, na verdade, próprio do autor, que talvez se julgue iluminado, como um guia dos povos a indicar o caminho a seguir na bem-aventurança de sua prédica radical (e até fanática, se observarmos bem). O medo é comum aos jovens, como também a disposição de lutar. Mas também é exigido deles, como aos velhos, ser honrado, pois é princípio revolucionário respeitar moralmente a pessoa, mesmo se discordarmos dela em termos político-ideológicos.

Eu diria mesmo que estão com medo justamente esses que estão saindo, arvorando-se intérpretes irrefutáveis do atual estágio da luta de classes no Brasil. Medo de não suportar o que já estamos vivendo como uma dimensão ideológica da luta, que é dar uma aparência falsa de tudo estar parado ou estar “piorando”, este piorar em termos de avanço do poder do capital e da hegemonia política burguesa. Querem, pelo desejo, acelerar o processo. Idealizam, ingenuamente, que haja, nos termos materiais e político-ideológicos da luta, alguma força capaz de materializar / mover agora esse engenho na perspectiva revolucionária. Talvez filosofem a partir dos seus hormônios e necessitem forçar processos para obter alguma carga de adrenalina. Mas a adrenalina não existe para dar sentido ao desespero e fanatismo das ideias. Se querem fruir a luta revolucionária como uma droga, saem do PCB em boa hora. Deve haver muita gente por aí interessada em voluntariosos espíritos fanatizados, ideais para massa de manobra. Deve haver espaço na Terra do Nunca para mais um Peter Pan e sua mentalidade (política) infantil.

Não quero essa régua da sociometria do desespero pequeno-burguês, pessoal ou de grupo. Esta régua vem de um baú antigo, de onde já saiu várias vezes para dar supostas soluções que resultaram em rachas dos rachas dos rachas ou em grupos que se formaram de grupos de grupos de grupos.

Caros retirantes. A rigor, não escrevi este texto como uma resposta. Não respondo a grosserias e ideias que primam pela contradição rasteira, até ódio. Esta carta pode servir para uma reflexão daqueles que querem instituir um debate sobre o PCB, suas resoluções políticas e a luta dos seus militantes (também feita de contradições, erros etc). Este debate nunca deixou de existir, pois, a despeito da aparência de tudo estar parado no Partido ou fora dele, as forças materiais continuam no seu eterno embate, embora muitas vezes não visível.

Mas, para começo de qualquer conversa ou debate, é preciso respeitar a honra das pessoas. Quem até hoje não aprendeu isso, dificilmente entenderá do que falo, mesmo quando estiver a relembrar, do alto de suas conquistas pessoais, o tempo em que fez o seu assalto aos céus, saindo do Partidão.

Recife, julho de 2011



Roberto Numeriano


Nota do Secretariado Nacional: Numeriano é membro do CC e do CR do PCB em PE, que se solidarizam com sua presente manifestação.


Postagem e comentários de : Luiz Navarro - O nosso entendimento é que o autor da "CARTA ABERTA", não tinha o objetivo de esclarecer nada, o objetivo maior foi causar danos ao PCB. Ficou parecendo uma vingança para satisfazer um ego ferido

Um comentário:

AF Sturt Silva disse...

Perai a carta aberta que vc está criticando é a do Roberto?