sábado, 5 de janeiro de 2013



115º ANIVERSÁRIO NATALÍCIO DE LUIZ CARLOS PRESTES

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(3/1/1898-7/3/1990)
LUIZ CARLOS PRESTES: SUA ATIVIDADE COMO ENGENHEIRO
Anita Leocadia Prestes
A vida de Luiz Carlos Prestes ainda é pouco conhecida do grande público; ao mesmo tempo, são constantemente distorcidas suas idéias e caluniados muitos dos seus gestos políticos. No texto abaixo, procura-se divulgar um aspecto pouco conhecido da trajetória do Cavaleiro da Esperança – sua atividade como engenheiro não só no Brasil, mas também em vários outros países em que sua vida de revolucionário o levou a exilar-se.
Rio de Janeiro
Luiz Carlos Prestes colou grau como engenheiro militar em janeiro de 1920, ao concluir o curso de Engenharia na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Nessa ocasião, foi promovido a 2º tenente de Engenharia. Como fora o primeiro aluno da turma, tinha o direito de escolher o lugar onde iria servir. Sua escolha recaiu sobre a Companhia Ferroviária, aquartelada em Deodoro, subúrbio do Rio de Janeiro. Havia duzentos homens nessa Companhia. Prestes recordaria que era uma ferrovia de campanha, para contornar a frente e realizar o transporte na retaguarda. Mas havia grande falta de material necessário para realizar o trabalho previsto e o único ano em que se realizaram manobras foi aquele em que Prestes, substituindo o comandante, que estudava medicina e só comparecia para assinar o expediente, passou, na prática a comandar a Companhia. O jovem tenente contava que o comandante confiava inteiramente nele:
Eu fazia tudo, dominava completamente a obra, comandava realmente a Companhia. Dirigia, fazia tudo, tinha inclusive instituído escolas. Eu chegava no quartel de manhã cedo, às seis horas, e, às vezes, só saía às oito da noite. Porque fiz escola para cabos, escola para sargentos e escola para alfabetização. Foi a primeira imagem que tive do povo brasileiro. Eu recebi uma turma de cem recrutas, todos eles originários aqui dessa Baixada fluminense, aí de  Mangaratiba, etc. Analfabetos, dezoito anos. (...) Com dezoito anos se alistavam e tinham que fazer o serviço militar. (...) Na sua maioria, 90% analfabetos. Todos eles com vermes intestinais (...) Os médicos tratavam com uma  brutalidade tremenda – era erva de Santa Maria e purgante de óleo de rícino. De maneira que o indivíduo levava um choque violento. (...) E um deles morreu. (...) E esses homens todos, eu consegui que aprendessem a ler, em pouco tempo, e depois tinha a Escola de cabos, Escola de sargentos. Fiquei ali na Companhia Ferroviária um ano. (...) Mas, em fins de 1920, como eu tinha sido o primeiro aluno da turma, fui convidado para ser instrutor na Escola Militar.1
O capitão José Rodrigues, ao exercer o comando da Companhia Ferroviária por um curto período, testemunhou que Prestes “também era um soldado”, afirmando que para ele fora uma revelação vê-lo “empunhar a picareta e o facão do mato e mostrar ao soldado, em linguagem simples, clara, como se fazia uma trincheira ou uma rede de arame”  e observar “como os soldados o ouviam atentos! E como manifestavam a sua satisfação!”2
Em janeiro de 1921, Prestes, já promovido a 1º tenente, a convite do coronel Monteiro de Barros, comandante da Escola Militar, assumia o posto de auxiliar de instrutor de Engenharia. Cada arma tinha um instrutor e um auxiliar. Anos mais tarde, ele recordaria que “a instrução de Engenharia era a coisa mais complicada que havia”, por que era necessário dar vários tipos de instrução,
desde abrir trincheiras (...), construir pontes (....) telegrafia (...), radiotelegrafia, telefonia, fotografia (....) tudo isso cabia na instrução de Engenharia. Para dois ...[o instrutor e o auxiliar]... tinham que ser enciclopédicos (...) E não havia material nenhum! De maneira que a primeira coisa que eu fiz foi pedir  material.3
O 1º tenente Luiz Carlos havia solicitado material para poder dar aula. Mas o material não chegava. Apenas lhe passaram algum material de fotografia. “Tinha lá uma estação de rádio-telegrafia, tinha algum material velho de telefonia de campanha, assim, muito pouca coisa, mas com esse material eu fui andando. Mas nada de receber o material.” Finalmente, após uns seis meses, recebeu uma terça ou quarta parte do que havia pedido. “Fiquei tão indignado que resolvi pedir demissão. Porque, como instrutor de Engenharia, eu tinha direito a uma diária de mil mil-réis, além do soldo de 1º tenente.” (Idem) Mas todos os alunos de Engenharia lhe pediram insistentemente que não saísse. Nesse ínterim, Prestes já havia sido promovido a diretor de instrução da arma de Engenharia, mas não lhe destinaram nenhum auxiliar. Ele dava aula também às outras armas, de Infantaria e de Cavalaria. Atendendo ao pedido dos alunos, Prestes permaneceu na Escola Militar até o final de 1921, quando, sem receber o material solicitado, fez um requerimento pedindo demissão.(Idem)
Antes disso, tanto o comandante da Escola Militar quanto o capitão Bentes Monteiro, oficial de gabinete do Presidente da República, haviam insistido com Prestes para que não se demitisse. O jovem 1º tenente respondia:
Eu não posso dar instrução. Eu estou enganando a Nação, fingindo que estamos formando oficiais de Engenharia, mas não estamos, e eu estou recebendo uma diária a mais por isso. Não posso ficar nessa posição, tenho que sair daqui, desde que não me dão material. (Idem)
O capitão Bentes Monteiro sugeriu a Prestes que fizesse um requerimento especificando tudo que ele considerasse necessário. Nesse requerimento, ele pedia
o que era necessário e o que não era. Menos de três oficiais não podiam ser instrutores, por que eu tinha uma porção de assuntos diversos. Cada um tinha que se especializar nalguma coisa para poder ensinar. E material.(...) Como não me deram resposta, deixei passar um mês, fiz um outro  requerimento,  reiterando o pedido de demissão. Então me demitiram e eu voltei para a minha Companhia, em Deodoro. (Idem)
Rio Grande do Sul
Prestes permaneceu 1º tenente apenas durante um ano, tendo sido promovido a capitão de engenheiros do Exército ainda em outubro de 1922, quando foi designado para servir no estado do Rio Grande do Sul. A missão delegada ao jovem capitão Luiz Carlos Prestes pela chefia da Comissão Fiscalizadora da Construção de Quartéis, com sede na Capital da República, consistia em assumir a fiscalização da construção de quartéis nas cidades de Santo Ângelo, Santiago do Boqueirão e São Nicolau, no Noroeste do estado do Rio Grande do Sul. Tratava-se de um contrato da administração com a Companhia Construtora de Santos, de propriedade de Roberto Simonsen, conhecido empresário paulista. Antes de partir para o Sul, Prestes procurou saber junto ao tenente-coronel que chefiava a Comissão Fiscalizadora, em que consistiria sua função fiscalizadora, obtendo a resposta de que a documentação se encontrava toda no local, no canteiro de obras. Ao chegar a Santo Ângelo, constatou que não havia documentação alguma; apenas “simples desenhos sobre a disposição dos pavilhões. Nada mais. Eu não sabia, portanto, quais eram as especificações ...[o que seria]... de cimento, de tijolo, de madeira (...) o telhado (...) nada”. (Idem)
Prestes ainda viajou à Santa Maria (RS), onde estava instalado o escritório central da Companhia Construtora de Santos, dirigida pelo coronel reformado Barcelos, da arma de Engenharia, nada tendo conseguido esclarecer a respeito da referida documentação.
Então, resolvi tomar um trem e voltei (...) ao Rio. (...) Informei ao chefe que eu não podia fiscalizar. O que é que eu ia fiscalizar se (...) não tinha, não sabia quais eram as especificações? Ele disse que era isso mesmo. De maneira que eu fiz um pedido de demissão por (...) não poder fiscalizar a obra, não poder (...) cumprir a tarefa de que estava encarregado. Mas, como militar, a única solução que eu tinha era voltar para Santo Ângelo e aguardar (...) a minha demissão. De maneira que voltei de novo para Santo Ângelo. (Idem)
Ao chegar a Santo Ângelo, Prestes relata que encontrou uma grande quantidade de contas da Companhia Construtora de Santos.
Eu examinei aquelas contas, para não dizer que estava sabotando (...) Aquele material, que eu vi que, realmente, tinha entrado, que estava dentro dos preços normais, eu botava o visto nas contas. Porque, a questão (...) a pressa da Companhia Construtora de Santos é que colocasse o visto, que ela cobrava. Era um contrato (...) terrível, porque a Companhia (...) tinha 10% líquidos sobre todas as despesas. Ela pagava as contas, as despesas e, em menos de um mês, ela recebia o pagamento pelo Exército, pelo Ministério da Guerra, pela Diretoria de Engenharia. Quer dizer que tinha um lucro de 10% ao mês....(risos) Esse é que era o negócio da Companhia Construtora de Santos. E a pressa que ela tinha  (...) de que o fiscal desse logo o visto para ir carregar. (Idem)
Prestes recordaria:
As outras contas, que eu tinha dúvidas, eu fazia um relatório para o chefe da Comissão, informando porque eu não visava, quais eram os motivos que eu tinha para não visar (...) porque eu não tinha visto o material, achava que a qualidade era inferior (...) e mandava um relatório detalhado, conta por conta, que eu não visava, e devolvia as contas. Visitei, fui a Santiago do Boqueirão, onde a obra era dirigida por um (...) engenheiro civil. E estive também em São Nicolau, onde havia um pequeno quartel a construir também. (Idem)
Prosseguindo seu relato, Prestes conta:
Nesse ínterim (...) chegou de São Paulo um trem, um grande trem, (...) de cinco ou seis vagões, com madeira – portas, janelas, esquadrias, de pinho da pior qualidade (...) dessa madeira cheia de nós, que você metia o dedo e ficava um buraco. (...) O que me chamava muito a atenção, porque Santo Ângelo é uma região de muita madeira, barata, e mão de obra muito mais barata do que a de São Paulo. E o trabalho que ia dar para colocar essas portas, janelas, esquadrias (...) ia ser maior do que se fizesse lá mesmo (...) porque estava tudo  desengonçado, madeira verde, que não dava, não acertava direito, era uma coisa terrível. (Idem)
Prestes não teve dúvida de embargar esse carregamento:
Eu, então, embarguei. (...) E, embargado (...)  dentro de poucos dias, recebi um telegrama do chefe da Comissão, de que as janelas, as portas (...) a madeira que havia sido enviada de São Paulo - e de uma oficina de carpintaria que o  Simonsen tinha em São Caetano – (...) eram realmente as que tinham vindo (...) e que eu, então, suspendesse o embargo. Então, eu fiz um ofício ao chefe  da Comissão (...), uma carta, em que explicava que eu era um simples fiscal, mas que, nessas condições, eu não poderia permitir que suspendesse o embargo, para permitir o emprego desse material, enquanto não viesse uma ordem expressa da chefia da Comissão de que as portas, as janelas, esquadrias deviam ser de pinho de péssima qualidade, mal confeccionadas, etc....(risos)... De maneira que a coisa ficou embargada lá, ficou parada lá, não veio essa carta e o material ficou embargado.(Idem)
Mais tarde, o jovem capitão verificou que não havia sequer um plano de esgotos para o quartel:
Era uma rede de esgotos complicada, porque havia edifícios em altura – havia uma série de coxilhas -, de maneira que eram 54 pavilhões, era um regimento de Cavalaria, com baias e (...) para cavalos e alojamentos para os soldados e administração. De maneira que, para não dizer também que eu estava  sabotando, eu mesmo comecei a tomar os pontos das cotas, das alturas, e iniciei um projeto de esgotos, de rede de esgotos, porque (...) senão (...) era possível que, descarregando num edifício, se levantasse noutro ... (risos)... porque os vasos comunicantes são... (risos).... levam a isso. Comecei a fazer (...) a estudar e a fazer esse projeto. Mas demorava, era um projeto demorado. Eu estava lá sozinho.(...) Chega, então, uma turma de uns vinte operários, especialistas (...) em esgotos, em (...) rede de esgotos, chegou de São Paulo. Todos eles com diária, tinham uma diária para hotéis – eles foram todos morar em hotel -, com uma determinada diária. De maneira que, quando eles chegaram, quando a primeira picareta levantou para abrir um local para iniciar as valetas, a  construção dos esgotos, eu também embarguei, não permiti. (...) Sem plano. Iam fazer simplesmente (...) os locais, colocar lá a rede de esgotos sem nenhum plano.Não havia nenhum plano. De maneira que (...) também embarguei. Embargado isso, dentro de pouco tempo, então me deram  a minha demissão “por necessidade de serviço”... (risos)... Fui transferido, por necessidade de serviço, para o Batalhão Ferroviário (...) em Santo Ângelo. (...) De maneira que essa foi a minha vida com a Companhia Construtora de Santos. (Idem)
Prestes foi transferido para o 1º Batalhão Ferroviário (1ºBF) de Santo Ângelo no segundo semestre de 1923. Eis o seu relato:
Assumi o cargo de chefe da Seção de Construção e fui para um local a 20 quilômetros da cidade de Santo Ângelo, onde estava uma companhia do Batalhão. Eu era o único oficial; tinha uma companhia de 200 homens, que estavam construindo uma ponte sobre um rio, afluente do Ijuí. Aí estávamos acampados. Os soldados estavam num alojamento, um barracão de palha, de chão de barro, cama de vara; terrivelmente mal alojados. Os sargentos eram uns burocratas terríveis, não se preocupavam (...) nunca houve instrução militar no batalhão. Eu, estando conspirando, resolvi dar instrução aos soldados. De maneira que organizei e tive  êxito  no  comando  dessa  companhia,  principalmente porque tinha a liberdade administrativa. Eu recebia diretamente o dinheiro e administrava a etapa desses 200 soldados. Então, a primeira medida que tomei – ao contrário do que se faz em geral nos quartéis -, em vez de escalar um soldado para cozinheiro, eu, com a etapa, aluguei um cozinheiro, um verdadeiro cozinheiro por 400 mil-réis ao mês, naquela época, e um padeiro. Mandei fazer um forno, desses fornos de campanha. Então, tinha um padeiro e um cozinheiro. E estabeleci uma divisão do trabalho. Com os soldados mesmos, eu fiz um campo de esporte. Preparamos um campo para poder dar instrução física e instrução militar também. Dividi os soldados em duas turmas de 100  e, um dia sim um dia não, uma dessas turmas ia para o campo para receber instrução física. Eu dava ginástica e fazia instrução física para esses soldados e, depois, dava ordem-unida para os  transformar  realmente em solados. E a outra turma de 100 eu dividia em pequenos grupos de 15 a 20 homens, e cada um deles com um responsável, para os quais eu dava ordens escritas. E eles iam, então, para a construção dos bueiros, ou nivelamento de linha, ou extensão de trilhos, colocação de dormentes. Enfim, cada um deles tinha uma tarefa  definida. E, ao mesmo tempo, criei três escolas. Fiz escola de alfabetização, e eu tinha somente uns 20 analfabetos. Era um pessoal saudável, filhos de colonos; em geral, eram filhos de alemães, de italianos, e um pessoal que se alimentava mais ou menos bem. Alguns tinham o primeiro grau, e eu mesmo dava  aula. (Idem)
Prestes conta a seguir como era a vida no acampamento por ele dirigido:
Acordávamos pela manhã, com a alvorada, tomava-se um café muito diferente desse café que se dá nos quartéis, porque, além de um café com leite, com pão e manteiga, ainda tinha, pelo menos, um pedaço de carne com batata e o pão fresco que saia do forno. Depois que voltavam  da instrução ou do trabalho, mais ou menos ao meio-dia, tinham um almoço e, depois do almoço, uma meia hora depois, se iniciava a escola regimental, que ia até as três horas da tarde. Às três horas davam um mate, e todos íamos para o trabalho, inclusive eu, que também ia para o trabalho na construção da linha. Quando voltávamos, à tarde, estávamos esgotados do trabalho. Eu exigia trabalho. Tomavam banho,  jantavam, e o pessoal ia era tratar de dormir. Eu ficava de tal maneira fatigado (...) tinha uma pequena casa onde eu vivia sozinho (...)  Eu comia a mesma comida dos soldados (...) Houve noite em que eu acordei com o toque de alvorada (...) Tinha dormido fardado, na mesa em que estava trabalhando ... (risos)... de tão fatigado que estava (...) Porque eu escrevia as ordens todas durante a noite (...) cada ordem para cada turma. (Idem)
Prosseguindo em seu relato, Prestes conta:
Na alfabetização, eu empreguei o seguinte: cada soldado analfabeto entreguei a um soldado que sabia ler e escrever. E ensinava a ele como é que ele devia ensinar o analfabeto. Com grande êxito, não é? Em três meses, estavam todos já assinando o nome. Fizemos até uma festa para entrega de diploma aos que ficaram alfabetizados. Fizeram uma bandeira brasileira com as assinaturas, com uma dedicatória para mim, que eles me davam. E os outros graus (...) eu fiz um primeiro e um segundo grau, preparando os soldados para poderem fazer exame para cabo, com o objetivo de elevar o nível de instrução desse grupo que eu pretendia levar à revolução, queria levar para a luta armada. (Idem)
O próprio Prestes assinalava que esse novo tipo de instrução militar por ele adotado no comando da sua companhia levou a que “a disciplina e o entusiasmo dos soldados .... [fosse]... imensa”. (Idem) Seu prestígio se tornaria enorme, garantindo-lhe a fidelidade do 1ºBF no momento do levante em preparação. Nascia um novo tipo de relacionamento, desconhecido até então nas fileiras do Exército brasileiro, entre os soldados e o comandante. Prestes conseguia estimular a iniciativa dos soldados - sem desprezar a disciplina -, que era alcançada com o exemplo do seu próprio comportamento, excluída a prática da violência e dos castigos corporais.
Em abril de 1924, ocorreu um incidente entre Prestes e o comandante do 1ºBF, envolvido em desvio de verba pública e, por isso, denunciado por Prestes às autoridades competentes. Esse comandante acabou sendo substituído por outro, que, ao chegar a Santo Ângelo, passou a perseguir o capitão Prestes. Diante de tal situação, Prestes achou melhor encaminhar um pedido de licença para tratamento de saúde. (Idem)
Após ter dado parte de doente, Prestes entrou em entendimento com o engenheiro Alexandre Rosa, que trabalhara antes para a Companhia Construtora de Santos e havia criado uma empresa para instalar a luz elétrica em Santo Ângelo.
Era uma (...) instalação velha, muito má (...) a cidade muito mal iluminada, e (...) como fora inaugurada uma usina hidrelétrica em Ijuí, ele ... [o Alexandre Rosa] ...fez um contrato para trazer a energia elétrica de Ijuí para Santo Ângelo. Eu fiquei encarregado (...) ele me encarregou, eu passei ao serviço da empresa, que ele organizou, para instalar (...) o serviço urbano, quer dizer, as linhas de transmissão dentro da cidade. (Idem)
O material para a obra era fornecido pela empresa alemã Siemens e havia um técnico alemão a serviço dessa empresa, encarregado da construção da linha de transmissão de Ijuí a Santo Ângelo, uma linha de vinte mil volts. Esse técnico alemão se chocava com os operários e o trabalho não avançava. Alexandre Rosa pensou que, no estado em que se encontrava a obra, Prestes não aceitaria levá-la adiante. Prestes conta como enfrentou o novo desafio:
Eu disse: - Eu tomo conta disso aí, eu faço essa linha aí. Em três meses eu faço isso funcionar. - Ele ....[ o Alexandre Rosa]... ficou muito admirado de eu aceitar (...) porque o mês de junho, julho, no Rio Grande é de vento (...) são meses de muito frio, muita chuva nessa época. Mas, botei lá uma barraca, acampei e comecei a construir a linha de transmissão (...) e aproveitei o alemão, que era técnico e conhecia mais do que eu ... (risos)... na questão da  transmissão, da construção da linha. Era uma linha de três fases (...) três fios que tinha-se que colocar, levantar os postes, etc. Eu botei a coisa em ordem (...) e um desastre terrível, porque, logo no primeiro dia de trabalho, caiu um poste em cima do joelho...(risos)... Passei uma semana de perna estendida (...) felizmente não quebrou nada. (...) No fim de uma semana, eu já estava bom e fui para a minha barraca. E houve dias em que não se podia acender um fogo para aquecer um chá, um café. E um frio terrível. Mas trabalhamos aí e,  realmente (...) isso foi, mais ou menos, em julho, agosto, setembro (...) Dia 28 de setembro, ou 29, inauguramos a luz elétrica em Santo Ângelo.(...)    Inauguramos, ainda eu me lembro da linha (...) construímos lá duas estações transformadoras. (Idem)
Em Santo Ângelo, o prestígio do capitão engenheiro Luiz Carlos Prestes era muito grande, principalmente após a inauguração da luz elétrica na cidade, “uma luz elétrica melhor que a anterior, (...) a anterior era péssima (...) uma usina térmica que estava parando quase sempre (...) a luz apagava a toda hora. De maneira que foi um grande êxito (...)” (Idem)
Bolívia
Com o exílio da Coluna Prestes na Bolívia (fevereiro/1927), a preocupação de Prestes foi procurar trabalho para assegurar a sobrevivência dos combatentes da Coluna, cuja situação era de total penúria, e, pouco a pouco, garantir seu regresso à pátria. A companhia inglesa de colonização de terras, Bolivian’s Concession Limited, sediada na vila de Gaiba, que até aquele momento vinha explorando brutalmente os indígenas locais, propôs a Prestes realizar, com seus homens, a abertura de uma estrada no meio da mata e a construção de pontilhões, para depois plantar café e outras culturas, assim como construir depósitos para armazenamento dos produtos. O salário seria pequeno, de cinco mil réis por 8 horas de trabalho, mas aceitável naquelas condições. Entretanto, quando a direção da empresa percebeu que se tratava de um número considerável de trabalhadores – cerca de 400 ex-combatentes da Coluna -, mudou de idéia, fazendo a Prestes a proposta de um contrato por empreitada, em que lhe seriam pagos 200 mil réis por quilômetro de estrada. A proposta era ridícula, pois significaria um grande prejuízo, uma vez que assim não seria possível pagar cinco mil réis a cada trabalhador. Prestes recusou-se a aceitá-la, propondo que os próprios ingleses tomassem a direção, enquanto ele se comprometeria a ajudar, mantendo a disciplina dos empregados. Diante disso, a empresa aceitou a contraproposta de um conto de réis (mil mil réis) por dia, feita por Prestes. Mesmo assim não cobria o total das despesas, uma vez que estas cresciam com o aumento do número de enfermos entre os ex-combatentes da Coluna, todos mantidos com esses recursos. O déficit seria grande, mas era coberto em parte com o dinheiro das subscrições feitas no Brasil por vários órgãos da imprensa do país.4 Prestes permaneceu na Bolívia até abril de 1928.
Argentina
Em novembro de 1928, Prestes, já em Buenos Aires, foi procurado por um empresário brasileiro, Dr. Otávio Botelho, que trabalhava com pavimentação de estradas e lhe ofereceu trabalho em Santa Fé (Argentina). Tratava-se de pavimentar uma grande avenida marginal do Rio Paraná nessa cidade. Prestes ficaria com a administração dessa obra, enquanto a parte técnica era de responsabilidade da Texaco.  Atravessando difícil situação financeira e sem saber que o empresário era amigo de Getúlio Vargas - e que a oferta de emprego consistia numa forma de tentar conquistar seu apoio à oposição oligárquica5 -, Prestes aceitou a proposta e partiu imediatamente para Santa Fé.
Eis o seu relato sobre o trabalho em Santa Fé:
Quando eu cheguei lá, em novembro, já fazia um calor terrível (...) Às duas horas da tarde, fazia 42º à sombra. E eu via os operários caindo, insolados (sic.), porque a insolação é depois do almoço. (...) O horário era: de manhã, começavam às oito  até o meio-dia; iam almoçar e às duas horas da tarde, justamente no maior sol, voltavam para o trabalho. E aí caíam ... diversos  operários caíam com insolação. Eu resolvi, então, mudar o horário. Consultei os operários. Eles concordaram. Eram argentinos .... poucos, a maior parte eram estrangeiros – iugoslavos, checos, imigrantes. (...) E o inglês, que era o  encarregado técnico (...) estava puxando os cabelos, porque os operários sabotavam o inglês.(...) A primeira vez que ele fez o asfalto, saiu todo ruim. Ele teve que mandar desmanchar (...) e já estava meio desesperado. (...) Mudamos o horário: começar às quatro da manhã, numa tirada só, até o meio-dia... de oito horas. E eu dava, às nove horas, quinze minutos para tomar um café, sem descontar do horário. (...) O patrão, quando soube disso, ficou indignado comigo, porque eu dei esses quinze minutos! Só depois é que ele percebeu que ganhava mais com quinze minutos. Eu fui ...(risos)... bom explorador dos trabalhadores, porque o rendimento era muito maior.6
Como o inglês, encarregado técnico da obra, sofreu um acidente, que o impossibilitou de trabalhar por algum tempo, Prestes não só  cuidou dele como estudou com ele o processo de preparação do concreto asfáltico e, de posse do manual com as instruções técnicas, que lhe foi fornecido pelo próprio inglês, tornou-se “dono da situação”, segundo suas palavras. (Idem)
Durante mais de um ano, Prestes trabalhou em Santa Fé e, quando a avenida já estava quase pronta, ele cedeu o lugar ao seu amigo Vitor César da Cunha Cruz, “tenente” revolucionário, que, perseguido no Rio de Janeiro, atravessava difícil situação financeira. O Dr. Botelho prometera a Prestes empregar seu amigo, mas quando este chegou, acompanhado de numerosa família, não havia trabalho para ele. Prestes não vacilou em ceder o lugar ao amigo, voltando para Buenos Aires, onde continuou empregado no escritório da mesma firma, pois o patrão, que era getulista, estava interessado em atraí-lo para a “causa” dos “revolucionários de 30”. (Idem) Prestes permaneceu na Argentina até outubro de 1930, quando foi expulso do país e transferiu-se para Montevidéu.
Uruguai
Prestes estava desempregado, em plena crise mundial do capitalismo, com a família passando dificuldades em Buenos Aires. Em Montevidéu, arrumou um trabalho de capataz numa empresa que fazia canalizações para águas pluviais. “Eram de cimento armado, grandes galerias de cimento armado. Eu trabalhava como engenheiro (...) mas me pagavam como capataz. Era um trabalho pesadíssimo.”7
Em Montevidéu, a situação financeira de Prestes era muito difícil; ganhava pouco “num trabalho pesadíssimo (...) Chegava em casa ultraliquidado. Com a roupa coberta de cimento (...) e morando na casa de um operário”  num subúrbio da cidade, “uma casa cheia de frestas”, onde “o frio era tremendo” devido ao vento que vinha do Polo Sul.8 Ao Brasil, não era possível voltar, pois se havia intensificado a perseguição aos comunistas. Nessa situação, os companheiros do Partido Comunista do Uruguai lhe propuseram que fosse para a União Soviética, onde poderia trabalhar como engenheiro9, teria a possibilidade de conhecer a experiência soviética e lhe ofereceriam maiores oportunidades para estudar o marxismo-leninismo.
União Soviética
Em Moscou (novembro/1931), ficou acertado que Prestes seria designado para um “truste” de construção ligado ao Ministério da Indústria Pesada.
Reportando-se aos tempos em que trabalhou no “truste” de construção, Prestes contava:
Havia sabotagem dos engenheiros estrangeiros, particularmente dos franceses e ingleses, que eram os piores nessa época. Os americanos eram os melhores, porque eram os mais democratas (...) o americano tinha mais facilidade (...) mas se desesperava, porque o americano está habituado a fazer uma ordenzinha para o contra-mestre e (..) ele decide. Mas lá tinha que formar o contra-mestre, porque os operários que vinham fazer as construções – eu estive em diversas construções – os operários (...) eram camponeses, que nunca tinham visto uma colher de pedreiro. Porque a melhor parte do  proletariado tinha morrido na guerra (...) tinha sido sacrificado na guerra. (Idem)
Comentando o panorama da capital da União Soviética, “que parecia desolador”, no início dos anos 1930, Prestes registrou que,
apesar das dificuldades da vida, suscitavam verdadeira admiração os ingentes esforços do povo soviético para cumprir em quatro anos o primeiro Plano Quinquenal e, de modo particular, a grande atividade desenvolvida pelo Partido Comunista, que explicava pacientemente ao povo as causas das dificuldades que atravessava.10
Prestes trabalhou nesse “truste” pouco mais de um ano. Em 1933, conseguiu transferência do “truste” de engenharia para o Instituto Agrário, uma instituição anexa à Internacional Comunista. Com isso, estava encerrada a carreira de engenheiro de Luiz Carlos Prestes.

1 LCP (Entrevistas concedidas por Luiz Carlos Prestes a Anita Leocadia Prestes e Marly de Almeida Gomes Vianna, gravadas em fita magnética e transcritas para o papel; RJ, 1981-83). LCP, fita nº 1.
2 RODRIGUES, José (capitão). Luiz Carlos Prestes; sua passagem pela Escola Militar. Fortaleza (Ceará), Typ. Minerva, de Assis Bezerra, 1927.
3 LCP, fita nº 2.
4 LCP, fita nº 6; fita nº F(B).
5 Em outubro de 1930, quando Vargas percebeu que não iria contar  com a participação de Prestes na “Revolução de 30”, este foi despedido pelo Dr. Botelho.
6 LCP, fita nº 8.
7 LCP, fita nº 9.
8 LCP, fita nº 9; Entrevista de L. C. Prestes concedida a Edgard Carone, Rio de Janeiro, 24 e 25  de março de 1982; texto original (Arquivo particular da autora).
9 O governo soviético contratava engenheiros estrangeiros para as obras do Primeiro Plano Quinquenal, pois os profissionais nacionais, fugindo do poder soviético, haviam , em grande parte, saído do país.
10 PRESTES, Luiz Carlos, “Como cheguei ao comunismo”, Cultura Vozes, nº2, Março-abril/1998, p. 150-151.

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